
“Sou uma mulher feliz”
Rosimeire Alves não é de muitas palavras nas redes sociais. Sua minibiografia do Facebook é essa aí, e quando respondeu a uma publicação minha em um grupo sobre O Segredo, se apresentou com um simples “oi”. Mas para falar sobre os ensinamentos d’O Segredo, mensagens não lhe são suficientes: “quero que você ouça no tom da minha voz o quanto a lei da atração me trouxe de bom. Só coisas boas”.

Esse tom de sua voz era de uma serenidade que raramente encontro e talvez nunca senti em mim mesmo. “A lei da atração é o poder da mente”, ela me lembra, e ainda que já soubesse, as palavras ganham novo contexto quando ela as pronuncia. Para quem não já sabia, pergunto: onde você estava em 2006? A chamada “lei da atração” é tema do livro insanamente popular da australiana Rhonda Byrne, intitulado The Secret – O Segredo. Divulgado por Oprah Winfrey, best-seller do The New York Times por mais de 200 semanas consecutivas, traduzido em mais de 50 línguas, transformado em filme de sucesso e com um faturamento de 300 milhões de dólares até 2009: O Segredo é a lei da atração. E é justo afirmar que não é mais um segredo a ninguém.
Como disse Mike Dooley, um dos mestres da lei da atração (filósofos e escritores que aparecem em comentários recorrentes por todo o livro), a premissa pode ser resumida em três palavras: “pensamentos viram coisas”! Pense em coisas boas e coisas boas lhe virão. Pense em coisas ruins e – bem, deu para entender. Só que também é mais que isso. O livro não defende somente que a lei da atração é uma força que influencia as nossas vidas: é a única força absoluta, determinante de tudo o que nos ocorre. Sem rodeios, Rhonda e seus mestres dão a notícia de que tudo de ruim que já lhe aconteceu, você inadvertidamente atraiu. Exemplos no livro incluem desde um “acidente de automóvel” até “acontecimentos históricos marcados por mortes massivas”.
Quanto às coisas boas proporcionadas pelo poder do pensamento, vão desde “um estado de espírito específico” a “10 milhões de dólares”. Talvez não seja tão surpreendente que a parte que os leitores mais guardam é a dos 10 milhões de dólares. O livro conta ainda com todo um capítulo sobre como aplicar O Segredo para ganhar dinheiro, e todos os grupos do Facebook que vi sobre o assunto continham muitas publicações com fotos de grandes maços de dinheiro e mensagens inspiracionais. “Gratidão ao Universo por tudo que ELE me proporciona a cada dia… trabalho, prosperidade, Amor e TUDO de bom que o Universo tem para mim e para Todos do grupo… receba mil vezes mais”! Comente “eu acredito e recebo” e o dinheiro virá.
Jeitinho brasileiro
Grupos que fazem leitura seletiva d’O Segredo. Ficam com a parte da grana, do poder do pensamento e com exercícios de mentalização que o livro sugere, como fazer listas das coisas pelas quais temos gratidão todos os dias. Focar sempre no positivo, sempre. E misturam isso com mais positividade, good vibes e poeira cósmica. Oração havaiana Ho’oponopono. Amém a Deus e ao Universo. Imagens de santos e budas. Imagens de bom dia, grupo. Amém a Deus e ao Universo. Imagens de santos e budas. Imagens de bom dia, grupo.
Cristina Pereira, administradora de uma comunidade com mais de 90 mil membros, é bom exemplo dessa espécie de sincretismo. Profissional “terapeuta thetahealing”, trabalha com conceitos da “física quântica, anatomia, PNL (programação neurolinguística), biogenética, lei da atração, metafísica avançada, etc” para a superação de traumas de forma “rápida e efetiva”. Já a Rosimeire, mulher feliz, era católica antes de se tornar evangélica, e foi evangélica até perceber que “seguir a Deus é muito mais prazeroso do que seguir a uma religião”. Rose já leu o livro cinco vezes – e leria ainda outras vezes, se não fosse emprestado. Quanto mais conversava com ela, mais evidente era a profundidade de sua fé. Queria saber as coisas boas que a lei da atração lhe trouxe. Teria ganhado na loteria? Curou-se de um câncer? Será que todos aqueles bolos de notas de cem reais pertencem a ela?

Rosimeire recentemente foi promovida no trabalho estável que tem há sete anos, graças ao Segredo. É garçonete em um restaurante de comida italiana. Mãe solteira, tem o aluguel em dia. Não tem luxo, mas não lhe falta nada em casa. É grata e contente com a vida que tem. Ainda mentaliza o sonho de ter um carro e uma casa própria.
Os “10 milhões de dólares” do livro nem entram na equação. Paula Peron, que dá aula de psicanálise na PUC-SP, havia me falado de como a literatura de auto-ajuda e coaching, gêneros que se aproximam muito da linguagem d’O Segredo, são uma importação dos Estados Unidos. Lar do self-made man. Onde a leitura desses livros se faz com outros olhos, outro contexto, outros potenciais de realização do indivíduo. Não tinha entendido de verdade o que isso significa até falar com Rosimeire. Talvez nos Estados Unidos seja diferente, mas aqui no Brasil, uma coisa que é difícil de encontrar é alguém que leia à risca O Segredo. Tem sim Ho’oponopono e poeira cósmica no meio, e eu diria que isso não é ruim.

Alento e esperança se encontram em Deus, no Universo, em buda e santos da abundância, correntes do Facebook – e na lei da atração, também. De preferência, em todos ao mesmo tempo. As referências vão se perdendo e só resta o essencial de cada uma: destilação de pura positividade e otimismo. No fim, não é sobre os 10 milhões. É sobre ter ambição sem perder o contentamento. Seguidora dedicada d’O Segredo, Marta Regina Franceschini enxerga assim o negócio: “antes, se não acontecesse algo planejado na minha vida, ficava frustrada. Hoje, entendo que não era para acontecer e bola para a frente, mentalizar coisas boas e elas vêm”! É ano de Copa. Bola para a frente, Brasil.