
Com 77 anos de vida, 57 de casada, preciso admitir. Não sei bem o que fazer de tantas lembranças.
Meus filhos estão sempre aqui em casa, mas nenhum jamais teve interesse em abrir isso junto comigo – em conhecer esse quase museu de memórias que juntei ao longo da vida.
Fazia tempo que eu mesma não dava atenção a ele. Foi a mudança que me obrigou. O escritório é o cômodo que mais está dando trabalho: esse armário do canto direito, que costumo fechar a chave, tem tanta lembrança dentro que muitas vezes me vi hesitante em explorá-lo.
Quando abri estas portas, hoje, as coisas foram diferentes. Além do passado, era também o futuro que eu temia. Diferente do primeiro, este novo medo me trazia um frio gostoso à barriga. Eu e Silvio nunca fomos acomodados, mas, com a idade, as coisas mudam. Assim que nos demos conta, decidimos pela casa nova, no bairro onde, tanto tempo atrás, nos conhecemos e construímos nossa vida.
Aqui dentro estão, catalogados, os mais de quarenta álbuns de foto da nossa família. Diante deles, uma sensação estranha: ao contrário do que acontece com as madrugadas que passei organizando as imagens, já não lembro com clareza dos momentos que elas registram.
No canto direito está a caixa com minhas cadernetas. São mais de quinze, preenchidas de ponta a ponta com versinhos que escrevi, quando ainda não tinha família para fotografar. A tentativa de lembrar como foi composta minha vasta poesia também causa estranhamento. Desse tempo, o que pareço ter registrado com mais intensidade é a esperança: as cadernetas, muito além de momentos, têm o poder de me lembrar de sonhos. Elas são lembranças do futuro que, durante muitos anos, me dediquei a planejar.
Ainda que esses planos tivessem, sim, um espaço reservado aos álbuns de família, não posso negar que a ideia central do meu roteiro nunca chegou a se concretizar. Ter meus versinhos publicados sempre esteve rotulado, em um canto escondido dos meus pensamentos, como nada além de um sonho juvenil. Nenhum poeta famoso nasce em Caxias do Sul, eu pensava. Melhor seguir os conselhos da mamãe: as responsabilidades da casa e da família são as únicas capazes de fazer da menina uma mulher.
A tarde que passo relendo os versinhos atrasa a mudança e castiga minha coluna, mas também torna evidente: a beleza do novo frio em minha barriga ultrapassa o mero frenesi da novidade.
Voltar ao bairro onde eu e Silvio nos conhecemos é voltar à sensação que um dia tive, de que as palavras me reservavam um futuro brilhante. Afinal, esse também é o bairro onde eu cresci, e onde, além das cadernetas, meu futuro foi um dia preenchido com sonhos.
Depois de finalmente terminar a separação do que vai à casa nova e o que vai ao lixo, é engraçado o quanto já não me sinto confusa sobre o que fazer das lembranças desse armário.
Não há mais espaço para receio. Ainda tem futuro pela frente, e quem sabe agora, com 77 anos de vida, 57 de casada, seja hora de apostar em ideias juvenis.