“O luto é o período em que aprendemos a lidar com uma nova visão das nossas vidas”.
É sobre processar a dor. Sempre que houver uma perda significativa e for preciso reaprender a viver sem isso haverá luto. Vem depois de qualquer morte: ente querido, amigo, relacionamento, ou até os traços originais do próprio rosto. Perder casa, pátria, família -, como no caso dos refugiados -, também gera luto. Acontece quando a presença vira ausência. Mas a coisa perdida está sempre lá, porque existiu.
Essa dor tem fases. Kubler-Ross, John Bowlby, Parkes, diversos estudiosos se dedicaram a elencar e descrever essas etapas. Alguns afirmam que são 4, outros 5. Mas, se há um consenso, é o de que elas não são lineares. Não tem “ordem correta” para acontecer. E nem duração.
A Bárbara passou por todas as fases. Autora da citação que abriu esse texto, com apenas 20 anos, conheceu o luto após perder um pai abruptamente. Do nada. Biologicamente, era tido como tio, mas ajudou a criá-la desde pequena. Um pai. Ela nunca recebeu a notícia. Ninguém pronunciou “ele morreu” para ela. “Eu simplesmente vivi esse fato com a dor, com as lágrimas, com os gritos dos meus familiares. Acredito que nem exista no dicionário alguma palavra que possa colocar em letras o sentimento mais avassalador da alma humana”.
Esse desconsolo inicial faz parte do que, geralmente, é a primeira etapa do luto. Descrença. Negação, choque. Alguns continuam automaticamente a viver, como se nada tivesse acontecido. Outros se escondem no seu próprio buraco, como a Bárbara.
Ela já havia perdido outros parentes antes. A madrinha, o bisavô, os avós paternos. Sofreu. Mas não havia sentido verdadeiramente a dor do luto. E a resposta está no vínculo. Bowlby chama de “Teoria do apego”. Está fielmente ligado a Darwin. Pode soar científico demais para algo puramente social, mas não há porque negar as características evolutivas do ser humano. Assim como diz a teoria: pessoas se apegam instintivamente a quem cuide delas, com a finalidade de sobreviver, incluindo o desenvolvimento físico, social e emocional. Todos eram da família, mas o vínculo com o pai era incontestavelmente maior.
Depois da descrença, pode vir a raiva. Explosões de raiva e tristeza. “Por que comigo?”. Daí começa o anseio e a busca pelo que está perdido. Há quem peça ao universo e as suas leis para que aquilo não seja verdade. A pessoa fica dócil, acha que, se se comportar bem, tudo vai voltar ao normal. O sofrimento psicológico é gigantesco. Às vezes, o enlutado chega a interpretar sons, cheiros, como sinais do morto. Mas a lucidez pode fazer a raiva voltar para alguns. Enquanto, para outros, a importância é internalizada, abrindo espaço para problemas além da carne.
O luto em si não é uma doença. Não existe luto patológico. Quando ele se agrava e pode vir a causar enfermidades, é chamado de luto complicado. Mas há de se reconhecer a irreversibilidade da perda. Não vem a um preço pequeno. Choro. Depressão. Apatia. Dor. Há quem se isole. Evite pessoas, não volta à vida normal. Falta sono, fome, vontade de viver. A impotência é esmagadora. Só depois que o buraco está muito fundo, que, talvez, haja uma luz.
“A luz que me cegou, me fez ver Deus”. Bárbara precisou de muita ajuda para não se entregar ao luto complicado. Ela também achava que nunca perderia alguém tão próximo. E foi com o apoio de família, amigos, psicólogo e psiquiatra que conseguiu seguir em frente: “o luto é um sinalizador. É o ponto de partida de um longo processo, de uma das caminhadas mais difíceis que tive que trilhar. E que não poderia caminhar sozinha, porque, se tentasse, cairia. Precisei, sim, de muita ajuda”. Alguns, com certeza, já venceriam apenas com isso. Mas Bárbara se apegou a mais um guia: Jesus.
Por fim, depois de todo o sofrimento, não vem a bonança. Mas sim a recuperação. Organização. O luto pode nunca passar, mas o processo de luto sim. A pessoa enlutada vai construindo uma nova identidade. Já tem forças para seguir em frente, já faz planos para a vida sem aquilo que perdeu. Não se trata de superar o luto. A grande questão é saber viver com a perda.
“Para mim, Bárbara, luto não é um período determinado no tempo e no espaço em que você ingere aquela grande quantidade de dor. O tempo vai passar e ele não vai deixar só saudades. Ele vai deixar a dor sim. Você vai ter que conviver com circunstâncias que aquela pessoa sonhou, construiu, planejou com você. E você vai estar sozinho.”
O mais importante é reconhecer a existência dessa dor. Se há vínculo, há luto.
Colaboraram:
Elaine Gomes dos Reis Alves; psicóloga, psicoterapeuta, pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP e autora do livro “Considerações Psicossociais sobre Deformidade Facial”
Maria Julia Kovacs; pós-doutora em psicologia e especialista em luto, professora da disciplina “Psicologia da Morte”, no Instituto de Psicologia da USP
Outras fontes:
Bowlby, J. (1990). Apego e perda, Vol 1. Apego: a natureza do vínculo.
Kubler Ross, E. As fases do Luto.
Fotos: Claire Castelano


