{"id":1828,"date":"2017-08-24T02:10:43","date_gmt":"2017-08-24T02:10:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=1828"},"modified":"2017-10-10T20:05:09","modified_gmt":"2017-10-10T20:05:09","slug":"assim-como-os-passaros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2017\/08\/24\/assim-como-os-passaros\/","title":{"rendered":"Assim como os p\u00e1ssaros"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde a primeira mem\u00f3ria que tenho, Dona Nisa j\u00e1 n\u00e3o conseguia guardar suas lembran\u00e7as muito bem. Ao conversar, ela logo esquece o que falamos. Seus chocolates \u2013 doces s\u00e3o uma de suas grandes paix\u00f5es \u2013 estragam nos arm\u00e1rios porque ela n\u00e3o lembra que escondeu. E, para fazer as atividades mais b\u00e1sicas do dia a dia, ela precisa do apoio da sua ajudante, a Vera.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A mais velha dos tr\u00eas filhos de Lu\u00eds e Ondina, Nisa Navarro nasceu em 1920, em Mococa, no interior de S\u00e3o Paulo. Diretora pedag\u00f3gica, sempre teve uma pose autorit\u00e1ria. A braveza, por\u00e9m, se esvai ap\u00f3s as primeiras palavras trocadas. Perdeu seu companheiro de vida aos 69 anos \u2013 hoje tem 97. Mas nem isso abalou sua postura firme.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vera ainda se lembra da \u00e9poca em que ela era totalmente l\u00facida. E se lembra do dia que isso come\u00e7ou a mudar: Dona Nisa, um senhora sempre t\u00e3o confiante e cheia de si, quase caiu em um desses golpes baratos de banco. Esbaforida \u2013 n\u00e3o sei se pelo epis\u00f3dio ou pelo calor intenso t\u00edpico de cidade interiorana \u2013, chegou em casa gritando pela ajudante: \u00a0\u201cVera! Preciso da senha da minha conta. Qual \u00e9 mesmo?\u201d. Vera estranhou, afinal, minha v\u00f3 nunca tinha tocado nesse assunto com ela. Perguntou o motivo. \u201cUma amiga que encontrei na rua disse que precisa ir comigo ao banco. Ela est\u00e1 me esperando na porta\u201d. Ao ir at\u00e9 l\u00e1, a estranha saiu correndo. Minha v\u00f3 teve algum tipo de apag\u00e3o enquanto andava sozinha e a fulana tentou se aproveitar dela.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso faz uns 20 anos. Desde ent\u00e3o, ela passou a sempre ter companhia \u2013 o que n\u00e3o virou um problema. N\u00e3o perdeu a personalidade marcante e o bom humor. N\u00e3o deixou de dizer que a vida seria mais interessante se o feij\u00e3o tivesse gosto de sorvete. E n\u00e3o deixou de brincar com as pequenas coisas. Mesmo ao esquecer de tirar os \u00f3culos na hora de se deitar, ela n\u00e3o perde a pose. \u201cEu preciso enxergar no sonho, oras\u201d, diz, ao coloc\u00e1-lo no criado mudo. De alguma maneira, consegue manter a postura inabal\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas h\u00e1 momentos dif\u00edceis. Os que ela n\u00e3o me reconhece, por exemplo. N\u00e3o chega a dizer, mas o olhar \u00e9 revelador. Num primeiro momento, a tristeza \u00e9 implac\u00e1vel. Tento, ent\u00e3o, pensar que sou s\u00f3 mais um entre os quinze netos. E ainda tem os seis bisnetos. Talvez seja exigir demais dela. Olho a situa\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia de 23 anos de vida. Enxergo cada dia como uma experi\u00eancia \u00fanica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por outro lado, esse curto per\u00edodo de tempo mal cabe na mem\u00f3ria de Dona Nisa. O que s\u00e3o 23 anos quando se tem quase um s\u00e9culo de vida? Pior ainda quando n\u00e3o se pode distinguir com clareza o ontem do hoje. Os dias, para ela, s\u00e3o p\u00e1ssaros que pousam rapidamente no parapeito da janela e logo al\u00e7am voo para longe. Ao menos, eles levam consigo os problemas e ang\u00fastias que costumam nos afligir. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde a primeira mem\u00f3ria que tenho, Dona Nisa j\u00e1 n\u00e3o conseguia guardar suas lembran\u00e7as muito bem. Ao conversar, ela logo esquece o que falamos. Seus chocolates \u2013 doces s\u00e3o uma de suas grandes paix\u00f5es \u2013 estragam nos arm\u00e1rios porque ela n\u00e3o lembra que escondeu. 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