{"id":1946,"date":"2017-10-17T23:43:38","date_gmt":"2017-10-17T23:43:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=1946"},"modified":"2017-11-16T02:36:53","modified_gmt":"2017-11-16T02:36:53","slug":"1946","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2017\/10\/17\/1946\/","title":{"rendered":"Com os p\u00e9s na terra"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com suas m\u00e3os \u00e1speras, Gabriel Trevisan corta um \u201ccacho\u201d de cogumelos que brota de um saco cheio de substratos onde os fungos s\u00e3o cultivados, nos galp\u00f5es escuros e \u00famidos como cavernas que existem em sua propriedade. O jovem de 25 anos cultivou os cogumelos e construiu os galp\u00f5es com seu irm\u00e3o mais velho, Lucas, formado em engenharia florestal. O trabalho \u00e9 motivo de orgulho, embora ele lamente seus inevit\u00e1veis res\u00edduos pl\u00e1sticos. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para sair completamente do sistema\u201d, admite.<br \/>\nDe fato, a vida de Gabriel, que hoje mora em um s\u00edtio na estrada de Gavi\u00e3o Peixoto, cerca de 300 quil\u00f4metros a oeste de S\u00e3o Paulo, mudou radicalmente em pouco mais tr\u00eas anos. Pode-se dizer que ele deixou para tr\u00e1s um sistema, e agora tenta construir outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Formado em avia\u00e7\u00e3o civil, foi piloto executivo por mais de dois anos. Mas, embora amasse voar, a realidade n\u00e3o tinha nada do glamour idealizado pelo senso comum. \u201cA competi\u00e7\u00e3o \u00e9 imensa, sempre vai ter quem tope voar por menos dinheiro. Cheguei a ter gastrite nervosa naquela \u00e9poca.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi quando Gabriel estava mais exaurido que seus pais compraram a propriedade onde ele vive e trabalha com o irm\u00e3o. \u201cNo in\u00edcio eu conciliava as duas coisas. Eu estava voando para um fazendeiro do Mato Grosso, mas a conviv\u00eancia com ele foi me desgastando. Ent\u00e3o larguei a avia\u00e7\u00e3o e vim trabalhar de vez na terra.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m do cultivo de cogumelos, recentemente os irm\u00e3os come\u00e7aram uma agrofloresta, onde ser\u00e3o cultivados no ritmo da natureza vegetais como bananas, batatas, mandioca e outras plantas frut\u00edferas. \u201cAl\u00e9m de produzir nosso pr\u00f3prio alimento, queremos estreitar a rela\u00e7\u00e3o entre produtor e consumidor. Muita gente acha ruim pagar sete reais por uma bandeja de shimeji, mas acha normal gastar mais que isso com rem\u00e9dios de que talvez n\u00e3o precisasse se comesse melhor.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acordar cedo at\u00e9 aos domingos, espetar o p\u00e9 em espinhos que perfuram as botas grossas, sujar as m\u00e3os na terra, t\u00ea-las \u00e1speras de tanto trabalho. A rotina do campo \u00e9 muito diferente da romantiza\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias que pipocam na internet sobre gente que \u201clargou tudo para viver na natureza\u201d. Mas, para Gabriel, mais que um neg\u00f3cio, seu trabalho no s\u00edtio \u00e9 um ideal, um estilo de vida.<br \/>\n\u201cSe no futuro algu\u00e9m quisesse comprar o s\u00edtio, eu n\u00e3o venderia. Mas ficaria muito feliz de inspirar essa pessoa a fazer o mesmo que eu, retomar o valor da vida no campo, de uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, de uma vida na qual o maior objetivo n\u00e3o seja o dinheiro.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dos tempos de aviador, preserva apenas a foto de perfil no Facebook, segundo ele \u201cmais por n\u00e3o gostar de tirar fotos do que por nostalgia\u201d. Mas a paix\u00e3o por voar ainda existe, e ele a alimenta com um paramotor, comprado para matar a saudade de tirar os p\u00e9s da terra. \u00c9 junto a ela, no entanto, que o jovem mostra que um outro sistema \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Com suas m\u00e3os \u00e1speras, Gabriel Trevisan corta um \u201ccacho\u201d de cogumelos que brota de um saco cheio de substratos onde os fungos s\u00e3o cultivados, nos galp\u00f5es escuros e \u00famidos como cavernas que existem em sua propriedade. 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