{"id":2868,"date":"2018-09-02T22:00:33","date_gmt":"2018-09-02T22:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=2868"},"modified":"2018-10-31T22:37:44","modified_gmt":"2018-10-31T22:37:44","slug":"um-esconderijo-do-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2018\/09\/02\/um-esconderijo-do-eu\/","title":{"rendered":"Um esconderijo do eu"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2869\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/fa_obsessao.jpg\" alt=\"fa_obsessao\" width=\"800\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/fa_obsessao.jpg 800w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/fa_obsessao-640x336.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 quem acampe por dias em fila de shows ou se estapeie para pegar uma palheta de guitarra atirada \u00e0 multid\u00e3o. Outros tatuam a imagem dos \u00eddolos nas costas e h\u00e1 quem at\u00e9 os persiga pelas ruas e conhe\u00e7a detalhes de suas vidas que os pr\u00f3prios nem sabem.<\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha visto comportamentos assim e at\u00e9 pensado \u201cisso \u00e9 doentio\u201d. Mas qual \u00e9, afinal, o limite entre o saud\u00e1vel e o patol\u00f3gico na maneira de um f\u00e3 lidar com seu objeto de desejo?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em termos neurol\u00f3gicos, o que se passa no f\u00e3 \u00e9 muito parecido com estar apaixonado. H\u00e1 um aumento do neurotransmissor dopamina no sistema nervoso, causando sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar. Ao mesmo tempo, ocorre uma queda de outro neurotransmissor, a serotonina, o que produz pensamentos obsessivos que est\u00e3o por tr\u00e1s da idealiza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que se admira, explica Thalita Nobre, professora da Unip e Unisantos e doutora em psicologia cl\u00ednica pela PUC. Embora essas rea\u00e7\u00f5es se deem com todos os apaixonados, os de perfil patol\u00f3gico n\u00e3o conseguem sair dessa condi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em situa\u00e7\u00f5es assim, o \u00eddolo torna-se um objeto distorcido na cabe\u00e7a do f\u00e3, que lhe atribui caracter\u00edsticas que n\u00e3o correspondem \u00e0quela pessoa de fato, afirma Bruno C\u00e9sar Afonso, psic\u00f3logo cl\u00ednico pela USP. \u00a0Quando essa idealiza\u00e7\u00e3o passa a interferir na adapta\u00e7\u00e3o de uma pessoa \u00e0 vida social e \u00e0s necessidades biol\u00f3gicas, h\u00e1 uma patologia em vista. \u00c9 o caso de pessoas que deixam de lado suas rela\u00e7\u00f5es sociais, sua sexualidade e obriga\u00e7\u00f5es como trabalho ou estudos para se dedicarem a acompanhar a vida de algu\u00e9m que admiram.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Deve-se ter cuidado para n\u00e3o julgar o afeto alheio, pondera Bruno. Essa distor\u00e7\u00e3o \u00e9 produzida pela estrutura ps\u00edquica do indiv\u00edduo na tentativa de lidar com um problema que as pessoas n\u00e3o percebem conscientemente, como uma frustra\u00e7\u00e3o ou uma falta. O que pode, inclusive, ser ben\u00e9fico.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 isso que ocorre em torno do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">revival <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">de bandas dos anos 90 e 2000, como Rouge e Backstreet Boys, conta o psic\u00f3logo. Muita gente \u201capresentou um comportamento excessivo em rela\u00e7\u00e3o a essas circunst\u00e2ncias, deixando de trabalhar pra passar dois dias na fila do show e ficar na frente do palco\u201d. O que este afeto revela \u00e9 um desejo de volta no tempo. Viver esse retorno \u201caos bons tempos\u201d por um momento \u00e9 positivo. Ao fim do show, o presente retorna.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em paralelo \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 a identifica\u00e7\u00e3o. Todos n\u00f3s imitamos outros ao longo da vida; algu\u00e9m que represente um modo de ser, agir e pensar. Isso \u00e9 parte da constru\u00e7\u00e3o da personalidade e at\u00e9 mesmo um sinal das necessidades do indiv\u00edduo. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre imitar e querer ser a pessoa, pontua Thalita Nobre. O problema surge quando essa distin\u00e7\u00e3o se perde.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao lidar com pacientes em condi\u00e7\u00f5es assim, Thalita conta que seu trabalho \u00e9 trazer o sujeito \u00e0 \u00a0realidade e desconstruir a idealiza\u00e7\u00e3o que faz de quem se deseja. Para isso, \u00e9 preciso que o f\u00e3 olhe para si e descubra suas pr\u00f3prias potencialidades. Quando a imagem do \u00eddolo deixa de ser um esconderijo, o f\u00e3 pode reencontrar a si mesmo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; H\u00e1 quem acampe por dias em fila de shows ou se estapeie para pegar uma palheta de guitarra atirada \u00e0 multid\u00e3o. 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