{"id":3584,"date":"2019-11-01T00:00:25","date_gmt":"2019-11-01T00:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=3584"},"modified":"2020-03-25T23:59:15","modified_gmt":"2020-03-25T23:59:15","slug":"sobre-quartos-vazios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2019\/11\/01\/sobre-quartos-vazios\/","title":{"rendered":"Sobre quartos vazios"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Eu sei que que a Carol n\u00e3o vai mais voltar. Ser\u00e1 sempre apenas visita&#8221;, diz a aposentada Sueli, 53 anos, sobre a filha. A fam\u00edlia, de Casa Branca (SP), viu h\u00e1 cinco anos a jovem sair de casa para cursar psicologia em Campinas (SP). Deixou orgulho e saudade, mas tamb\u00e9m la\u00e7os rompidos. &#8220;S\u00f3 de ver a cama dela arrumada vinha uma sensa\u00e7\u00e3o forte de que perdi algo&#8221;, conta a m\u00e3e. Exce\u00e7\u00e3o \u00e0s visitas casuais de Carol, a porta do quarto ficou fechada por cerca de um ano, diz. O ambiente a lembrava todo dia do que tentava esquecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de c\u00f4modos vazios, certos objetos e atividades tamb\u00e9m s\u00e3o ressignificados pelos pais com a mudan\u00e7a de rotina, segundo Marcelo Alves, doutor em Psicologia Social e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. &#8220;\u00c9 uma altera\u00e7\u00e3o muito grande. Os pais passam a ter que ressignificar suas vidas&#8221;. Como Sueli que passou a ajudar o marido, Ademir, no com\u00e9rcio \u2014 pais desocupados tendem a sentir mais a perda, dizem especialistas \u2014, ap\u00f3s o mais novo, Jo\u00e3o, seguir o exemplo da irm\u00e3, deixando o casal sozinho, em definitivo. Eles tamb\u00e9m aderiram \u00e0s redes sociais e contatam os filhos diariamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Privil\u00e9gio que An\u00e1lia de Oliveira, 82 anos, n\u00e3o teve quando viu a ca\u00e7ula, Brenda, partir para cursar o colegial em Belo Horizonte (MG). Era 1987. Na casa da fam\u00edlia, em Campos Altos (MG), a m\u00e3e respirava preocupada. Falavam por telefone uma vez na semana. &#8220;Me senti sozinha. Meu marido viajava muito e eu tinha medo: n\u00e3o teria quem me levar ao m\u00e9dico se precisasse&#8221;, conta ela, medindo cada palavra j\u00e1 que, ao lado, a filha ouve atenta ao depoimento. A curiosidade \u00e9 justificada. Muitos pais sofrem em segredo ap\u00f3s a sa\u00edda dos filhos. &#8220;Sabem que, se contarem, os filhos podem n\u00e3o ficar bem, j\u00e1 que t\u00eam outras tarefas e demandas&#8221;, afirma a psic\u00f3loga Alessandra Turini, da Unesp.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os paulistanos F\u00e1bio e Ricardo, de 47 e 49 anos respectivamente, servem de exemplo. &#8220;Nunca contei para eles, mas chorava muito&#8221;, revela Caetana, 71 anos, rindo. Por op\u00e7\u00e3o, os irm\u00e3os sa\u00edram de casa h\u00e1 cerca de tr\u00eas d\u00e9cadas, em um intervalo de um ano. M\u00e3e solteira, Caetana passou a sentir-se &#8220;in\u00fatil&#8221; e &#8220;sozinha&#8221;, mesmo trabalhando. Nunca procurou um psic\u00f3logo \u2014 por falta de &#8220;tempo e dinheiro&#8221; \u2014, mas diz ter tido depress\u00e3o. &#8220;O que mais do\u00eda \u00e9 que eu tentava contar \u00e0s minhas amigas o sofrimento. Mas ningu\u00e9m conseguia entender&#8221;. Para ela, o tempo serviu de cura. Ou rem\u00e9dio, j\u00e1 que a cicatriz permanece e \u00e9 cutucada de vez em quando, como enquanto cozinha. &#8220;O Ricardo comia muito. Em vez de um frango, sempre fazia dois&#8221;, lembra ela, saudosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &#8220;Eu sei que que a Carol n\u00e3o vai mais voltar. Ser\u00e1 sempre apenas visita&#8221;, diz a aposentada Sueli, 53 anos, sobre a filha. A fam\u00edlia, de Casa Branca (SP), viu h\u00e1 cinco anos a jovem sair de casa para cursar psicologia em Campinas (SP). 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