{"id":3870,"date":"2020-06-23T12:51:30","date_gmt":"2020-06-23T12:51:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=3870"},"modified":"2020-09-23T03:59:23","modified_gmt":"2020-09-23T03:59:23","slug":"avenida-parte-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2020\/06\/23\/avenida-parte-do-brasil\/","title":{"rendered":"Avenida (parte do) Brasil"},"content":{"rendered":"<p>No final de 2012, em um clube na capital carioca, um casal celebrava seu amor. A poucos dias do final da trama que mobilizou o pa\u00eds, o tema n\u00e3o poderia ser outro: a novela Avenida Brasil.<\/p>\n<p>Os convidados foram instru\u00eddos a irem fantasiados. Cada um deveria escolher aquele personagem com quem mais se identificava. As telenovelas, que na Am\u00e9rica Latina reuniram tra\u00e7os da cultura melodram\u00e1tica e oral do povo \u00e0s novas tecnologias da televis\u00e3o, t\u00eam o poder de mobilizar multid\u00f5es. Surgiram inspiradas nos folhetins franceses do S\u00e9c. XIX, mas muito mudaram ao atravessar o mar e conquistar o hor\u00e1rio nobre.<\/p>\n<p>\u201cA novela come\u00e7ou j\u00e1 no primeiro ano da TV no Brasil. Era como um teatro ao vivo, j\u00e1 que as t\u00e9cnicas de grava\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o eram t\u00e3o sofisticadas\u201d, dizia aos convidados uma das recepcionistas da festa, Maria Cristina\u00b9, f\u00e3 e estudiosa das novelas.\u00a0 Ela se referia ao ano de 1951, quando a primeira novela brasileira, \u201cSua Vida Me Pertence\u201d foi exibida pela TV Tupi.<\/p>\n<p>O ambiente largo era dividido em c\u00f4modos. Alguns mais luxuosos, como as casas da elite carioca, e outros mais simples, representando a realidade dos sub\u00farbios e periferias. Diziam por ali que a decora\u00e7\u00e3o era original, comprada direto da Central de Atendimento ao Telespectador. Mas nem tudo veio da Globo: com o sucesso da produ\u00e7\u00e3o, os camel\u00f4s tamb\u00e9m produziam r\u00e9plicas das j\u00f3ias mais famosas. \u201cA cenografia \u00e9 importante, o cen\u00e1rio chega a ser um personagem\u201d, diria Maria Cristina mais tarde, depois de agradecer uma a uma, desperdi\u00e7ando segundos, as marcas presentes.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mulheres e homens magros, altos e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">brancos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> pareciam se divertir. Casais heterossexuais trocavam car\u00edcias como se n\u00e3o fossem vistos por ningu\u00e9m \u2013 n\u00e3o existiam crian\u00e7as na sala. Algumas brigas terminavam em copos e l\u00edquido arremessados. Algumas mortes estranhas? Na festa n\u00e3o, mas na novela\u2026 Mas tudo passava r\u00e1pido e, num piscar de olhos, outros casais se formavam. Sempre entre homens e mulheres, \u00e9 claro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dois anos depois, se a mesma festa fosse feita, algo poderia ser diferente. Ser\u00e1 que finalmente um casal homossexual poderia se beijar no cerne das fam\u00edlias brasileiras? E o medo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">influenciar <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">as crian\u00e7as? Faltaria \u2018Amor \u00e0 Vida\u2019 ao escritor de tal heresia?\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Outro ponto: a capital do Rio de Janeiro ali narrada eram estranhamente branca. Estranhamente sim, mas n\u00e3o surpreendia ningu\u00e9m \u2013 at\u00e9 porque muitos nem percebiam. Na novela que inspirava a festa, um time de futebol sem negros. 45 personagens principais, 3 negros entre eles. A festa apenas refletia a realidade das TVs, que, por sua vez, refletia tamb\u00e9m a sociedade \u2013 e seu racismo. Influenciar e ser influenciado, concomitantemente.<\/p>\n<p>Mas dois convidados ali estavam atentos. Gostavam da festa, \u00e9 claro, mas n\u00e3o sem deixar de apontar incongru\u00eancias. \u201cUma festa no Rio de Janeiro deveria ser assim t\u00e3o branca?\u201d, questionou Vin\u00edcius\u00b2 \u00e0 Larissa\u00b3, que complementou \u201cE os poucos negros aqui n\u00e3o parecem t\u00e3o felizes. \u00c9 quase como se s\u00f3 sobrassem as fantasias de empregados ou pedintes&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ao final da noite, depois de rir e chorar, Larissa pensou: \u201cfoi uma \u00f3tima festa, que nas pr\u00f3ximas festeje mais gente\u201d.<\/p>\n<p><b>Colaboraram:<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00b9 Profa. Dra. Maria Cristina Palma Mungioli, estuda telenovelas na USP\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00b2 Vinicius Louren\u00e7o, f\u00e3 da novela Avenida Brasil<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00b3 Larissa Barbosa, f\u00e3 da novela Avenida Brasil<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">*As falas foram inspiradas em entrevistas, n\u00e3o s\u00e3o transcri\u00e7\u00f5es diretas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-weight: 400;\">*A festa foi inspirada em uma <\/span><a href=\"https:\/\/extra.globo.com\/tv-e-lazer\/avenida-brasil-casal-se-fantasia-de-tufao-de-carminha-em-festa-de-aniversario-de-casamento-6422405.html\"><span style=\"font-weight: 400;\">festa real<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A novela constru\u00edda para representar diversas facetas do Brasil deixou alguns de lado<\/p>\n","protected":false},"author":347,"featured_media":3871,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[786],"tags":[773,5,787,400,666,413],"class_list":["post-3870","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-influencia-2","tag-773","tag-claro","tag-claro-influencia","tag-influencia","tag-novela","tag-novelas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3870","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/347"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3870"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3870\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3872,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3870\/revisions\/3872"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3871"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3870"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3870"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}