{"id":419,"date":"2015-10-04T23:00:56","date_gmt":"2015-10-04T23:00:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=419"},"modified":"2015-11-05T00:09:53","modified_gmt":"2015-11-05T00:09:53","slug":"futuro-do-preterito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2015\/10\/04\/futuro-do-preterito\/","title":{"rendered":"Futuro do pret\u00e9rito"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-420\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/2015-09-13-19.53.03-640x360.jpg\" alt=\"2015-09-13 19.53.03\" width=\"640\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/2015-09-13-19.53.03-640x360.jpg 640w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/2015-09-13-19.53.03-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com 77 anos de vida, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">57<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> de casada, preciso admitir. N\u00e3o sei bem o que fazer de tantas lembran\u00e7as. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meus filhos est\u00e3o sempre aqui em casa, mas nenhum jamais teve interesse em abrir isso junto comigo &#8211; em conhecer esse quase <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">museu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> de mem\u00f3rias que juntei ao longo da vida.<\/span><\/p>\n<p>Fazia tempo que eu mesma n\u00e3o dava aten\u00e7\u00e3o a ele. Foi a mudan\u00e7a que me obrigou. O escrit\u00f3rio \u00e9 o c\u00f4modo que mais est\u00e1 dando trabalho: esse arm\u00e1rio do canto direito, que costumo fechar a chave, tem tanta lembran\u00e7a dentro que muitas vezes me vi hesitante em explor\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando abri estas portas, hoje, as coisas foram diferentes. Al\u00e9m do passado, era tamb\u00e9m o futuro que eu temia. Diferente do primeiro, este novo medo me trazia um frio gostoso \u00e0 barriga. Eu e Silvio nunca fomos acomodados, mas, com a idade, as coisas mudam. Assim que nos demos conta, decidimos pela casa nova, no bairro onde, tanto tempo atr\u00e1s, nos conhecemos e constru\u00edmos nossa vida.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aqui dentro est\u00e3o, catalogados, os mais de quarenta \u00e1lbuns de foto da nossa fam\u00edlia. Diante deles, uma sensa\u00e7\u00e3o estranha: ao contr\u00e1rio do que acontece com as madrugadas que passei organizando as imagens, j\u00e1 n\u00e3o lembro com clareza dos momentos que elas registram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No canto direito est\u00e1 a caixa com minhas cadernetas. S\u00e3o mais de quinze, preenchidas de ponta a ponta com versinhos que escrevi, quando ainda n\u00e3o tinha fam\u00edlia para fotografar. A tentativa de lembrar como foi composta minha vasta poesia tamb\u00e9m causa estranhamento. Desse tempo, o que pare\u00e7o ter registrado com mais intensidade \u00e9 a esperan\u00e7a: as cadernetas, muito al\u00e9m de momentos, t\u00eam o poder de me lembrar de sonhos. Elas s\u00e3o lembran\u00e7as do futuro que, durante muitos anos, me dediquei a planejar. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda que esses planos tivessem, sim, um espa\u00e7o reservado aos \u00e1lbuns de fam\u00edlia, n\u00e3o posso negar que a ideia central do meu roteiro nunca chegou a se concretizar. Ter meus versinhos publicados sempre esteve rotulado, em um canto escondido dos meus pensamentos, como nada al\u00e9m de um sonho juvenil. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Nenhum poeta famoso nasce em Caxias do Sul, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">eu pensava. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Melhor seguir os conselhos da mam\u00e3e: as responsabilidades da casa e da fam\u00edlia s\u00e3o as \u00fanicas capazes de fazer da menina uma mulher.<\/span><\/i><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A tarde que passo relendo os versinhos atrasa a mudan\u00e7a e castiga \u00a0minha coluna, mas tamb\u00e9m torna evidente: a beleza do novo frio em minha barriga ultrapassa o mero frenesi da novidade. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Voltar ao bairro onde eu e Silvio nos conhecemos \u00e9 voltar \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o que um dia tive, de que as palavras me reservavam um futuro brilhante. Afinal, esse tamb\u00e9m \u00e9 o bairro onde eu cresci, e onde, al\u00e9m das cadernetas, meu futuro foi um dia preenchido com sonhos. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois de finalmente terminar a separa\u00e7\u00e3o do que vai \u00e0 casa nova e o que vai ao lixo, \u00e9 engra\u00e7ado o quanto j\u00e1 n\u00e3o me sinto confusa sobre o que fazer das lembran\u00e7as desse arm\u00e1rio. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para receio. Ainda tem futuro pela frente, e quem sabe agora, com 77 anos de vida, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">57 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">de casada, seja hora de apostar em ideias juvenis.<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com 77 anos de vida, 57 de casada, preciso admitir. N\u00e3o sei bem o que fazer de tantas lembran\u00e7as. Meus filhos est\u00e3o sempre aqui em casa, mas nenhum jamais teve interesse em abrir isso junto comigo &#8211; em conhecer esse quase museu de mem\u00f3rias que juntei ao longo da vida. 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