{"id":46,"date":"2015-04-24T14:08:12","date_gmt":"2015-04-24T14:08:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/\/?p=46"},"modified":"2015-05-22T01:49:07","modified_gmt":"2015-05-22T01:49:07","slug":"arcos-e-flechas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2015\/04\/24\/arcos-e-flechas\/","title":{"rendered":"Arcos e flechas"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\"><a href=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Arcos-e-flechas-4-Cr\u00e9dito_-Coletivo-Vie-La-En-Close-e1431915543860.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-111\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Arcos-e-flechas-4-Cr\u00e9dito_-Coletivo-Vie-La-En-Close-e1431915543860.jpg\" alt=\"Arcos e flechas (4) (Cr\u00e9dito_ Coletivo Vie La En Close)\" width=\"800\" height=\"600\" \/><\/a><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Rafael Hayashi prende os cabelos longos, compridos e negros em um coque por tr\u00e1s da cabe\u00e7a. Com as t\u00eamporas raspadas e os olhos puxados como seu sobrenome sugere, ele parece mesmo um samurai. Ao menos \u00e9 assim que brinca Enivo, ele tamb\u00e9m com os longu\u00edssimos dreadlocks atados \u00e0 nuca. Mas, por mais marcantes que sejam, n\u00e3o foram essas as fei\u00e7\u00f5es que estiveram sob os holofotes midi\u00e1ticos poucos meses atr\u00e1s.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Os dois artistas est\u00e3o por tr\u00e1s de uma das obras que estampam os v\u00e3os dos Arcos do J\u00e2nio, ali na avenida 23 de Maio. As famigeradas fei\u00e7\u00f5es s\u00e3o aquelas de um grafite ilustrando o que era para ser um homem negro, mas acabou interpretado como um retrato do ex-l\u00edder venezuelano Hugo Ch\u00e1vez. Os grandes ve\u00edculos de imprensa logo se apressaram a contatar Hayashi para a a fat\u00eddica pergunta: era ou n\u00e3o era?<\/p>\n<p dir=\"ltr\">&#8220;Foi sem querer querendo&#8221;, ri Enivo. &#8220;A gente juntou cinco artistas para fazer uma coisa legal, que n\u00e3o tivesse marca-d&#8217;\u00e1gua de nenhum de n\u00f3s. A\u00ed pegamos uma de v\u00e1rias imagens do Rafa e fomos l\u00e1 numa madrugada.&#8221; Mas, no plano art\u00edstico, ser ou n\u00e3o ser \u00e9 quest\u00e3o subjetiva. E o grafite \u00e9 arte.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A afirma\u00e7\u00e3o parece descabida em tempos onde essa vertente da arte urbana aparece na novela das oito e em propagandas da Coca-Cola, mas pintar muros da cidade em p\u00fablico gera um retorno imediato da audi\u00eancia. &#8220;A cada cinco minutos algu\u00e9m passa e fala alguma coisa, muitos elogios, mas tamb\u00e9m muitas cr\u00edticas&#8221;, diz Enivo, que nem sempre pede autoriza\u00e7\u00e3o para grafitar e, por isso, j\u00e1 teve seus incidentes com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Rafael prefere fazer da periferia sua tela, e pede licen\u00e7a para pintar. Mas reconhece: &#8220;A ess\u00eancia do grafite \u00e9 ser ilegal, \u00e9 a contraven\u00e7\u00e3o mesmo&#8221;.\u00a0A est\u00e9tica \u00e9 apenas um lado de uma arte com potenciais m\u00faltiplos: o protesto social, a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano. Isso, \u00e9 claro, enfrenta resist\u00eancia do poder p\u00fablico, com seus policiais e inexor\u00e1veis pinc\u00e9is, como na hist\u00f3ria em que a prefeitura removeu, por engano, desenhos enormes na pr\u00f3pria 23 de Maio. Cada grafite apagado, por\u00e9m, \u00e9 o surgimento de uma nova tela para ser preenchida.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Um epis\u00f3dio, que diz muito sobre a desaprova\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, foi este protagonizado por Enivo e Rafael, quando sua obra amanheceu rabiscada com o inconfund\u00edvel desenho de um p\u00eanis.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">&#8220;A partir do momento em que termino a arte, ela n\u00e3o \u00e9 minha: \u00e9 da rua&#8221;, fala Enivo. &#8220;Mas aqueles rabiscos foram uma manifesta\u00e7\u00e3o rid\u00edcula de um bando de fascistinha. Aquilo n\u00e3o \u00e9 pixa\u00e7\u00e3o; pixa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa. O prefeito Haddad me ligou para conversar. Disse: &#8216;Se foi mesmo a inten\u00e7\u00e3o, assumam. Voc\u00eas t\u00eam meu apoio.'&#8221; Mas o desenho do homem, com todas as interpreta\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es que fomentou, j\u00e1 virava personagem principal de um debate ao qual n\u00e3o pertencia. &#8220;O que ficou claro \u00e9 que est\u00e1vamos sendo usados em um jogo pol\u00edtico bem mais amplo que aquele grafite&#8221;, Rafael acrescenta. &#8220;Fomos os bodes expiat\u00f3rios.&#8221;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Os artistas sabiam que aquele seria um ponto de muita visibilidade. &#8220;Mas o local era fechado com grades, era sujo, abandonado, tinha gente que se abrigava l\u00e1.&#8221; Quando os desenhos surgiram, de repente, o valor hist\u00f3rico do monumento reapareceu e os Arcos se tornaram intoc\u00e1veis. Se a vida imita a arte, a obra de Enivo e Rafael trouxe consigo uma profus\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es, ideias, de reflex\u00f5es, de protestos, ideais pol\u00edticos\u2026 O grafite, no entanto, ainda se mostra para quem vem da Zona Leste e pega a al\u00e7a de acesso \u00e0 23. Agora, por\u00e9m, com os olhos vendados e a boca calada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Hayashi prende os cabelos longos, compridos e negros em um coque por tr\u00e1s da cabe\u00e7a. Com as t\u00eamporas raspadas e os olhos puxados como seu sobrenome sugere, ele parece mesmo um samurai. Ao menos \u00e9 assim que brinca Enivo, ele tamb\u00e9m com os longu\u00edssimos dreadlocks atados \u00e0 nuca. 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