{"id":4654,"date":"2021-06-02T00:43:46","date_gmt":"2021-06-02T00:43:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=4654"},"modified":"2021-07-01T12:23:46","modified_gmt":"2021-07-01T12:23:46","slug":"nunca-e-so-um-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2021\/06\/02\/nunca-e-so-um-sonho\/","title":{"rendered":"Nunca \u00e9 s\u00f3 um sonho"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4655\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/capa-sonhos.jpg\" alt=\"capa-sonhos\" width=\"940\" height=\"535\" srcset=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/capa-sonhos.jpg 940w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/capa-sonhos-640x364.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><\/p>\n<h5>Arte por Renata Souza<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas horas depois de fechar os olhos, surge uma amea\u00e7a. \u201cFoge!\u201d \u00e9 o instinto natural. N\u00e3o tem como. Porta quebrada, janela fechada, a ponte desmoronou. Sonhos como esse, sem sa\u00edda, t\u00eam surgido para alguns brasileiros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cyntia Pivato est\u00e1 entre eles. Aos 18 anos, ela nunca sonhou tanto quanto agora. Sonhos durante a noite toda, bem detalhados e com um tom de ang\u00fastia. Dormir j\u00e1 n\u00e3o tem sido t\u00e3o bom assim. \u00c9 cansativo, ela confessa. O que a jovem tem vivido reflete uma antiga curiosidade: por que sonhamos?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gilson Iannini, professor de teoria psicanal\u00edtica, diz que o sonho \u00e9 o momento em que o c\u00e9rebro processa as informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o foram elaboradas ao longo do dia. Mais do que isso, \u00e9 quando recuperamos desejos, traumas e medos que n\u00e3o s\u00e3o conscientes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4658\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/giphy-4.gif\" alt=\"giphy (4)\" width=\"480\" height=\"360\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sigmund Freud, pai da psican\u00e1lise, e Carl Jung, criador da Psicologia Anal\u00edtica, acreditavam que os sonhos s\u00e3o a porta de entrada ao inconsciente. Com uma diferen\u00e7a: o segundo via no sonhar uma janela para as camadas da mente primitiva, que n\u00e3o s\u00e3o da personalidade de um ou de outro, mas da nossa esp\u00e9cie. Ou seja, que delimitam o que \u00e9 ser humano.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Atrav\u00e9s da distor\u00e7\u00e3o, em que surgem os absurdos, as situa\u00e7\u00f5es fora da l\u00f3gica ou da realidade, os sonhos driblam nossa censura interna e mostram o que realmente somos e pensamos, conta Gilson. Os sonhos &#8220;aleat\u00f3rios&#8221;, que Cyntia tamb\u00e9m relata, v\u00eam da\u00ed.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4661\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/brain-70s_6061570456594750.gif\" alt=\"brain-70s_6061570456594750\" width=\"480\" height=\"480\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sonhar pode ainda ser um treino da mente para cen\u00e1rios futuros, conta Nat\u00e1lia Mota, neurocientista especializada no sono, criando respostas mais r\u00e1pidas para um futuro amea\u00e7ador. E esses mecanismos, baseados no dia a dia, podem ainda ter um efeito coletivo em determinados momentos hist\u00f3ricos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na Alemanha nazista, por exemplo, a jornalista Charlotte Beradt ouviu mais de 300 sonhos para responder: \u201cComo o governo Hitler impactou o sonho dos alem\u00e3es?\u201d. O resultado, publicado no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Sonhos no Terceiro Reich, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">mostrou que os impactos do totalitarismo, marcado pelo terror, foram sentidos at\u00e9 em sonhos. Mais de 80 anos depois, j\u00e1 na pandemia, grupos de pesquisa brasileiros decidiram fazer algo semelhante.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em estudos separados, que escutaram centenas de relatos, tanto Nat\u00e1lia quanto Gilson chegaram \u00e0 mesma conclus\u00e3o: os primeiros meses de Covid-19 no pa\u00eds deixaram mais fortes os sentimentos de raiva e tristeza no sonho dos brasileiros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4694\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/giphy-downsized-large.gif\" alt=\"giphy-downsized-large\" width=\"415\" height=\"415\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante eventos como esses, de ruptura na vida comum e uma onda de incertezas, o inconsciente coletivo \u00e9 abalado. Come\u00e7am a surgir padr\u00f5es nos sonhos, explica Gilson. Al\u00e9m de maior intensidade, a ang\u00fastia foi outro padr\u00e3o, com cen\u00e1rios de perigo, sem escapat\u00f3ria. Cyntia faz parte dos 14,4 milh\u00f5es de desempregados no Brasil, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios) do IBGE, e nesse per\u00edodo de crise tamb\u00e9m sonha, muitas vezes, com uma grande fuga.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEstava com algumas pessoas e comecei a falar muitas coisas e agredir, com crise de ansiedade e agressividade. Fugi de m\u00e9dicos, que foram atr\u00e1s. Eu revidava, acabei agredindo um deles, que conseguiu me segurar\u201d, diz sobre um dos sonhos recentes. A vivacidade citada por Gilson, sempre presente: \u201cSenti cada suspiro e ang\u00fastia que estava vivendo no sonho\u201d, afirma Cyntia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4659\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/giphy-5.gif\" alt=\"giphy (5)\" width=\"480\" height=\"242\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, apesar dos padr\u00f5es em per\u00edodos de crise, numa escala mais individual esse nem sempre \u00e9 o melhor caminho. Pensar o significado dos sonhos pode ser um bom exerc\u00edcio, opina o psicanalista, mas sem buscar s\u00edmbolos universais. O mais interessante \u00e9 compartilhar pensamentos, contar para as pessoas, abrir o sentido.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>Colaboraram:<\/b><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Gilson Iannini, professor de teoria psicanal\u00edtica do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, doutor em filosofia pela USP e um dos autores do livro Sonhos confinados: O que sonham os brasileiros em tempos de pandemia<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Marcio Luciano de Souza Bezerra, mestre em Neurologia pela UFF, doutorando de neurologia da Unirio, possui t\u00edtulo de especialista na medicina do sono pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Sono<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Natalia Bezerra Mota, doutora em Neuroci\u00eancias pela UFRN e membro do laborat\u00f3rio Sono, Sonhos e Mem\u00f3ria do Instituto do C\u00e9rebro da UFRN<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Cyntia Pivato, 18 anos, vestibulanda<\/span><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sonhos angustiantes, intensos e de fuga t\u00eam sido comuns para alguns brasileiros. Neste longform, investigamos o que motiva os sonhos e o que pode estar por tr\u00e1s de noites mal sonhadas.<\/p>\n","protected":false},"author":410,"featured_media":4712,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[965],"tags":[970,969],"class_list":["post-4654","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cabeca","tag-fuga-da-realidade","tag-sonhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/410"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4654"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4758,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4654\/revisions\/4758"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}