{"id":5208,"date":"2021-10-07T00:26:39","date_gmt":"2021-10-07T00:26:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=5208"},"modified":"2021-11-05T02:59:17","modified_gmt":"2021-11-05T02:59:17","slug":"a-excentrica-presenca-paterna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2021\/10\/07\/a-excentrica-presenca-paterna\/","title":{"rendered":"A exc\u00eantrica presen\u00e7a paterna"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5209\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/PAI-PRESENTE-V2.png\" alt=\"PAI-PRESENTE-V2\" width=\"940\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/PAI-PRESENTE-V2.png 940w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/PAI-PRESENTE-V2-640x364.png 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><\/p>\n<h5>Arte por Bruna Irala e Mayara Prado<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dias em claro. Nem se lembra mais como \u00e9 uma noite inteira de sono. Um som reverbera. S\u00e3o tr\u00eas horas da manh\u00e3. O beb\u00ea est\u00e1 chorando. Pega rapidamente aquele barulhento ser, balan\u00e7a at\u00e9 cansar. N\u00e3o adianta. Troca a fralda, passa pomada, mais balan\u00e7os, mais cansa\u00e7o&#8230; O som parou de ecoar. A crian\u00e7a dormiu. Coloca de volta no ber\u00e7o e d\u00e1 um beijo de boa noite.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essas situa\u00e7\u00f5es foram descritas por figuras paternas. Uns s\u00e3o pais solo, outros dividem as tarefas familiares e dom\u00e9sticas com seus c\u00f4njuges.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Lei n\u00ba 8.069\/90 institui que \u201caos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educa\u00e7\u00e3o dos filhos menores\u201d. As figuras paternas que cumprem o seu dever legal, tamb\u00e9m chamados de pais presentes, no entanto, s\u00e3o tratadas como \u201cdiferentes\u201d.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cleberson Rocha, 37, cria sua filha sem a figura materna, que faleceu por complica\u00e7\u00f5es no parto. Quando levava a crian\u00e7a ao Posto de Sa\u00fade, as enfermeiras o admiravam e ficavam surpresas \u201cpor cuidar t\u00e3o bem\u201d da menina. Eduardo Buzzinari, que tamb\u00e9m \u00e9 pai, relata que costuma ser o \u00fanico homem nas reuni\u00f5es escolares.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E por que esta rela\u00e7\u00e3o entre pai e filho \u00e9 exc\u00eantrica, estranha? Porque essa n\u00e3o \u00e9 a regra.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao menos 100 mil crian\u00e7as nascidas nos sete primeiros meses de 2021 n\u00e3o t\u00eam o nome de seus pais no registro, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais. Al\u00e9m disso, mais de 11,5 milh\u00f5es de fam\u00edlias eram chefiadas por mulheres, segundo dados de 2015 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica). O principal motivo \u00e9 o abandono parental.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Voltemos os olhos para uma m\u00e3e solo, Rosilda Bonete. Casou-se. Separou-se. Tinha dois empregos e cuidava sozinha dos filhos. Beijava-lhes as m\u00e3os ao deix\u00e1-los na escola, ficava a marca forte de batom &#8220;para mostrar que, mesmo n\u00e3o estando ali, eu estaria pensando neles\u201d. Apesar disso, enfermeiras n\u00e3o faziam coment\u00e1rios dizendo que estavam impressionadas pela forma como ela cuidava de seus filhos. Mas eles, quando pensam na inf\u00e2ncia, lembram-se de uma m\u00e3e presente.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A psic\u00f3loga L\u00facia Moreira explica que o envolvimento paterno engloba tr\u00eas dimens\u00f5es. A primeira trata das intera\u00e7\u00f5es, como brincar e conversar. A segunda consiste em o pai ser acess\u00edvel \u00e0 crian\u00e7a, para atender \u00e0s necessidades dela. Por \u00faltimo, a figura paterna precisa ser respons\u00e1vel, tanto no sustento financeiro quanto na sa\u00fade do filho. Quando o pai est\u00e1 ausente, a m\u00e3e fica sobrecarregada e a crian\u00e7a n\u00e3o se beneficiar\u00e1 das oportunidades de conviv\u00eancia com o pai.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo a psic\u00f3loga, pais presentes interagem com os filhos de modo diferente da m\u00e3e, ampliando o conhecimento da crian\u00e7a sobre diversos aspectos da realidade e favorecendo o seu desenvolvimento. Apesar disso, um filho, Vinicius Moreira, diz que n\u00e3o necessariamente sentiu falta do pai ausente, porque a m\u00e3e &#8220;nunca deixou faltar afeto&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A m\u00e3e dos beijos nas m\u00e3os reflete que as exig\u00eancias de um pai s\u00e3o niveladas por baixo, e a sociedade estabelece demandas diferentes para a maternidade e para a paternidade. &#8220;Para os pais \u00e9 pedido muito pouco, e esse endeusamento [dos pais presentes] chega a nos constranger como m\u00e3es solo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">As hist\u00f3rias aqui retratadas, apesar de particulares, podem fazer-se identificadas em milh\u00f5es de outros brasileiros que viveram situa\u00e7\u00f5es de abandono parental, transcendendo o limite dos nomes.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong><strong>\u00a0<\/strong><\/strong><\/p>\n<h3><b>Colaboraram:<\/b><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Cleberson Rocha, pai<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Eduardo Buzzinari, pai<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Eli J\u00fanior Assis, pai<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Fernando Ferrari, pai<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">L\u00facia Vaz de Campos Moreira, doutora em Psicologia pela USP e professora da Universidade Cat\u00f3lica de Petr\u00f3polis (UCP)<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Maria Rosilda Bonete, m\u00e3e<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Vinicius Moreira, filho<\/span><\/h3>\n<h3><span style=\"font-weight: 400;\">Weytel de Oliveira, filho<\/span><\/h3>\n<h3><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arte por Bruna Irala e Mayara Prado &nbsp; &nbsp; Dias em claro. 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