{"id":550,"date":"2015-11-05T00:08:59","date_gmt":"2015-11-05T00:08:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=550"},"modified":"2015-12-02T18:49:16","modified_gmt":"2015-12-02T18:49:16","slug":"agirofobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2015\/11\/05\/agirofobia\/","title":{"rendered":"Agirofobia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/ilustra\u00e7\u00e3o-rua-com-olhos-614x640.png\" alt=\"ilustra\u00e7\u00e3o rua com olhos\" width=\"614\" height=\"640\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-551\" srcset=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/ilustra\u00e7\u00e3o-rua-com-olhos-614x640.png 614w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/ilustra\u00e7\u00e3o-rua-com-olhos-1152x1200.png 1152w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/ilustra\u00e7\u00e3o-rua-com-olhos.png 1474w\" sizes=\"auto, (max-width: 614px) 100vw, 614px\" \/><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nPor que t\u00e3o escorregadia, droga? Que tipo de gente comprava ma\u00e7aneta redonda, dessas que se aperta pra abrir, machucando as articula\u00e7\u00f5es?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nAs palmas eram j\u00e1 l\u00edquidas do suor e sal e a boca era j\u00e1 seca porque vinha da porta aberta um vento infernal de rua. Os p\u00e9s eram dois que quase se tran\u00e7avam em queda. O t\u00eanis era branco leite e a sola lambia o concreto ainda com todas as ranhuras de confec\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO que sujava seu corpo era o barulho constante de gente. Era gente preta, gente branca, gente de pele descascada do sol que fazia ferver o asfalto. E as gentes gritavam ao telefone que chegariam em cinco minutos e engoliam a pipoca doce que deixava os dedos tingidos de vermelho-sangue, como se pulsassem vida.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOlhos na trilha dos p\u00e9s. E o ru\u00eddo das vozes era t\u00e3o horr\u00edvel que chegava a parecer a sua pr\u00f3pria voz multiplicada por mil, como reflexo no espelho.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u00c9 um burburinho que n\u00e3o existe dentro da lata, no banco de couro, dezoito graus celsius a soprar na cara, o p\u00e9 viciado no pedal e nova brasil \u00e9fe eme \u00e0s oito da manh\u00e3. \u00c0s dez, \u00e0 uma, \u00e0s quatro e \u00e0s sete.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nMas naquele dia era p\u00e9 no t\u00eanis branco que pisa o concreto e o asfalto e at\u00e9 o buraco e tamb\u00e9m a raiz das copas que sombreiam as cal\u00e7adas.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u201cD\u00e1 um trocado?\u201d, \u201cVoc\u00ea sabe onde fica a Brigadeiro? Poxa, eu n\u00e3o sou daqui e n\u00e3o consigo achar a rua. T\u00f4 procurando emprego. Me indica a dire\u00e7\u00e3o?\u201d, \u201cN\u00e3o quer ver nosso card\u00e1pio? Fazemos grelhados e\u201d, \u201cE a\u00ed! Quanto tempo? Opa, te confundi\u2026 Desculpa\u201d, \u201cChip da TIM, s\u00f3 dez reais, olha o chip da TIM!\u201d.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nTranspirava uma coisa grudenta. Sentia que suava o suficiente pra pele umedecer doce, e a primeira marcha das latas do engarrafamento salgavam o ar com a fuma\u00e7a preta.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOlhos na trilha dos p\u00e9s. E porque \u00e9 que algu\u00e9m haveria de gostar disso n\u00e3o sabia. Se expor assim ao incerto sem paredes.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO asco vinha pelas narinas. Como \u00e9 que pode o azedo invadir assim? Como \u00e9 que pode essa gente cheirar assim? Essa gente que n\u00e3o se recolhe, essa que olha pra frente, nos olhos dos outros e ousa gastar muitas horas da vinte e quatro sob o sol, cheirando azedo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nE os disfarces? Cada baunilha que entope narizes nos pesco\u00e7os azedos. O \u00f3leo de gergelim na panela quente cheira a graxa e envolve o fio e o br\u00f3coli e a cenoura praquela gente cortar entre os dentes. E depois cospem borrachento no ch\u00e3o ou nos buracos que exalam merda.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOlhos na trilha dos p\u00e9s. A nuca do\u00eda, o abd\u00f4men tensionado sob a camiseta e os ombros presos \u00e0s orelhas. S\u00f3 que os bra\u00e7os s\u00e3o sempre livres.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO corpo exige essa rela\u00e7\u00e3o estranha com os objetos do mundo. \u00c9 lei da f\u00edsica que dois corpos n\u00e3o ocupam o mesmo espa\u00e7o, mas os bra\u00e7os s\u00e3o pueris e, por muitas vezes, insistem em desafiar a lei. Batem forte e dolorido no que cerca o mundo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOlha pra frente, imbecil! E mirou.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOlhos nos olhos de Alex. E Mariana, e Ot\u00e1vio, Marcos, Raquel, Clara, Roberto, Ana e dessa gente que n\u00e3o se recolhe, essa que olha pra frente e ousa gastar muitas horas das vinte e quatro sob o sol.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nMirou o concreto derretendo, mirou a gente caminhando, mirou a chuva condensada, a barriga grande do homem, o pr\u00e9dio onde morava, a boca ao celular, a gente matando tempo. E se viu.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nE ali todos os objetos ocuparam o mesmo espa\u00e7o, que era o espa\u00e7o de si, que era o espa\u00e7o de tudo.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Por que t\u00e3o escorregadia, droga? Que tipo de gente comprava ma\u00e7aneta redonda, dessas que se aperta pra abrir, machucando as articula\u00e7\u00f5es? &nbsp; As palmas eram j\u00e1 l\u00edquidas do suor e sal e a boca era j\u00e1 seca porque vinha da porta aberta um vento infernal de rua. 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