{"id":683,"date":"2016-03-22T15:50:17","date_gmt":"2016-03-22T15:50:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=683"},"modified":"2016-04-28T14:36:08","modified_gmt":"2016-04-28T14:36:08","slug":"voce-pode-parar-com-esse-barulho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2016\/03\/22\/voce-pode-parar-com-esse-barulho\/","title":{"rendered":"\u201cVoc\u00ea pode parar com esse barulho?\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-684\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/IMG_9225-editada-640x427.jpg\" alt=\"IMG_9225 editada\" width=\"454\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/IMG_9225-editada-640x427.jpg 640w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/IMG_9225-editada-1200x800.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 454px) 100vw, 454px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao que Fabiane se lembra, come\u00e7ou quando ela tinha seis ou sete anos. A irrita\u00e7\u00e3o com os barulhinhos que o irm\u00e3o fazia quando crian\u00e7a acabou se intensificando ao longo da vida. Choro, desespero, dor no corpo, falta de ar e taquicardia s\u00e3o alguns dos sintomas que ela sente ao ouvir algu\u00e9m fazendo um pequeno barulho &#8211; mas que para ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pequeno assim. Agora com trinta anos, ela descobriu, h\u00e1 dois, que o que sentia tinha nome. A doen\u00e7a se chama misofonia e, antes de saber disso, Fabiane era s\u00f3 taxada de \u201clouca\u201d, estr<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">essada e mau humorada. De fato, s\u00e3o poucos os m\u00e9dicos que sabem do que se trata.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pesquisa em torno da doen\u00e7a \u00e9 realmente recente; foi descrita pela primeira vez em 2001, por isso o grande desconhecimento. Trata-se de uma rea\u00e7\u00e3o extremamente forte e inconveniente quando o paciente escuta determinados sons. Chiclete, clique de caneta, som de teclado, respira\u00e7\u00e3o alta, salto alto batendo no ch\u00e3o, batuque na mesa\u2026 cada misof\u00f4nico tem sua seletividade. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Silvana, de cinquenta anos, sente as m\u00e3os tremerem e suarem; o desespero \u00e9 quase que autom\u00e1tico. Ouvir algu\u00e9m mascando chiclete \u00e9 quase que uma tortura. Os barulhos da \u00faltima vizinhan\u00e7a a fizeram mudar de um apartamento para uma casa. N\u00e3o que ela tenha deixado de se incomodar: o chuveiro do vizinho \u00e9 ouvido por Silvana a seis metros de dist\u00e2ncia da sua lavanderia. Mas os ensaios do filho m\u00fasico nunca a incomodaram. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Isso ocorre porque os misof\u00f4nicos se incomodam justamente com os sons baixos. A doen\u00e7a, por\u00e9m, pode se relacionar a outros dist\u00farbios, como a hiperacusia, a fonofobia ou o zumbido. A primeira se refere aos sons m\u00e9dios e altos; a segunda, ao medo do som; e a terceira, a sons que vem de dentro da pessoa. Pacientes com misofonia n\u00e3o t\u00eam problemas nos ouvidos, mas a via auditiva \u00e9 mais sens\u00edvel a sons. N\u00e3o \u00e9 um defeito, mas sim uma caracter\u00edstica; \u00e9 como a rela\u00e7\u00e3o dos olhos azuis com a luz forte. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Forte como os efeitos da misofonia nas vidas dos que a t\u00eam. Os sintomas fizeram com que Isabella, de 20 anos, tivesse que se afastar de uma amiga pr\u00f3xima, porque os barulhos produzidos pela colega com rinite a incomodavam muito. Ao contr\u00e1rio de Fabiane, Isabella nunca foi chamada de louca; isso porque ela sempre reprimiu muito as sensa\u00e7\u00f5es ruins, o que acabou deixando-a muito ansiosa e deprimida. A intensidade da misofonia de Isabella \u00e9 t\u00e3o grande que, atualmente, ela faz cursinho online por n\u00e3o suportar aulas presenciais. \u201cPara mim, a doen\u00e7a \u00e9 acumulativa. N\u00e3o tem um barulho que antes me incomodava e hoje n\u00e3o me incomoda mais, sabe? S\u00f3 vai crescendo, e parece que n\u00e3o volta pra tr\u00e1s\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E \u00e9 verdade. 90% dos casos de misofonia t\u00eam in\u00edcio na inf\u00e2ncia ou na adolesc\u00eancia e, a partir disso, a previs\u00e3o \u00e9 ou estabilizar ou piorar, acumulando sons irritantes. Voltar atr\u00e1s est\u00e1 fora de cogita\u00e7\u00e3o nessa doen\u00e7a, a n\u00e3o ser atrav\u00e9s dos tratamentos. Estes, por\u00e9m, ainda s\u00e3o pouco comprovados como certeiramente eficazes, devido ao pouco estudo a respeito da s\u00edndrome. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O lado bom \u00e9 que a divulga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a est\u00e1 tomando propor\u00e7\u00f5es maiores: as pesquisas est\u00e3o crescendo, o jornalismo est\u00e1 comentando mais, os misof\u00f4nicos est\u00e3o se unindo &#8211; o grupo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Misofonia em Portugu\u00eas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, no facebook, j\u00e1 tem mais de dois mil membros. Como bem resumiu o misof\u00f4nico Lucas*, \u201csem d\u00favida alguma, \u00e9 muito bom saber que eu n\u00e3o sou o \u00fanico \u2018implicante\u2019 no mundo\u201d. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">*Nome fict\u00edcio. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte das informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas: Tanit Ganz Sanchez, otorrinolaringologista e especialista em Misofonia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao que Fabiane se lembra, come\u00e7ou quando ela tinha seis ou sete anos. A irrita\u00e7\u00e3o com os barulhinhos que o irm\u00e3o fazia quando crian\u00e7a acabou se intensificando ao longo da vida. 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