{"id":753,"date":"2016-04-28T15:38:13","date_gmt":"2016-04-28T15:38:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/claro\/?p=753"},"modified":"2016-05-25T02:06:42","modified_gmt":"2016-05-25T02:06:42","slug":"753","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/claro.eca.usp.br\/index.php\/2016\/04\/28\/753\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias Compartilhadas"},"content":{"rendered":"<p><em>Hora de passar adianta a heran\u00e7a da fam\u00edlia<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-754\" src=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/coisas-antigas-640x620.png\" alt=\"coisas antigas\" width=\"640\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/coisas-antigas-640x620.png 640w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/coisas-antigas-1200x1162.png 1200w, https:\/\/claro.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/coisas-antigas.png 1502w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sua parte favorita da heran\u00e7a s\u00e3o as seis x\u00edcaras listradas de amarelo e acompanhadas dos pires, o \u00fanico conjunto completo de sua cole\u00e7\u00e3o. Ficavam na prateleira \u00e0 altura dos olhos, quando ainda era uma crian\u00e7a admirando a cristaleira que a av\u00f3 ganhou de presente de casamento, na d\u00e9cada de 30.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Minha m\u00e3e arruma cuidadosamente as x\u00edcaras antigas, primeiro envolvendo em jornais e depois colocando numa caixa de papel\u00e3o. Tudo bem conservado at\u00e9 que a restaura\u00e7\u00e3o do m\u00f3vel da fam\u00edlia fique pronta para receber as pe\u00e7as que acompanham a cristaleira h\u00e1 tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es familiares. \u00c9 bom estar cuidando do que sua av\u00f3 e sua bisa cuidaram.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olhei aquela pilha de lou\u00e7as amontoadas e perguntei se ela j\u00e1 havia pensado em se desfazer de alguma coisa. Claro que n\u00e3o. Preferia que se mantivesse na fam\u00edlia, que eu e a minha irm\u00e3 tom\u00e1ssemos gosto pela coisa e herd\u00e1ssemos o sentimento junto com as lou\u00e7as. Eu, que nunca tinha pensado em cuidar da cristaleira, propus que procur\u00e1ssemos outro destino para os objetos, s\u00f3 para ver a rea\u00e7\u00e3o. Primeiro um n\u00e3o, depois um riso desconfiado. C\u00ea t\u00e1 louca, filha? Disse que ia dar s\u00f3 uma olhada, como quem n\u00e3o quer nada.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O primeiro passo foram os antiqu\u00e1rios e afins. Na feira de antiguidades do MASP, que acontece todo domingo, encontrou uma x\u00edcara rosa igual a da bisa. Quanto custa? Ela n\u00e3o queria saber de vender, mas perguntava o pre\u00e7o. Depois percebi que s\u00f3 por curiosidade, j\u00e1 que tamb\u00e9m n\u00e3o queria comprar. Nada daquilo tinha o mesmo valor para ela, eram coisas estranhas \u00e0 sua mem\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quem sabe um museu? Uma institui\u00e7\u00e3o que se dedica \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o de objetos antigos parece um bom local para que as rel\u00edquias passem a eternidade. Minha m\u00e3e aprovaria. Sempre gostou de observar essas pe\u00e7as, pensar nas pessoas que as teriam usado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Claro, nem todas as pe\u00e7as s\u00e3o aceitas pelas institui\u00e7\u00f5es. Se passar pelas etapas de sele\u00e7\u00e3o, a rel\u00edquia da minha m\u00e3e deve ficar na reserva do museu, entre suas iguais, sendo zelada por funcion\u00e1rios e exposta de quando em quando.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo se os museu e lojas estiverem prontos para receber a cristaleira, minha m\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 pronta. Filha, n\u00e3o sei se estarei um dia. E eu nunca havia percebido o quanto aquele objeto significava at\u00e9 pedir que ela fizesse isso.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cada um tem um tempo pr\u00f3prio para decidir que est\u00e1 na hora de se deixar aquele objeto \u2013 que tanto significa para sua vida e para sua fam\u00edlia \u2013 ser conhecido e at\u00e9 usado por outras pessoas. \u00c0s vezes esse tempo nunca chega.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Perguntei se n\u00e3o queria contar a hist\u00f3ria da fam\u00edlia em um projeto de registro, compartilhar o valor afetivo, como havia acabado de fazer comigo. Pra qu\u00ea, filha? Ningu\u00e9m vai querer escutar isso.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Encontrei uma iniciativa que ela achou interessante. N\u00e3o por poder contar a sua hist\u00f3ria, mas por ouvir a dos outros. O projeto de volunt\u00e1rios do Museu da Pessoa funciona \u00e0 dist\u00e2ncia, e conta com transcri\u00e7\u00e3o de relatos de vidas comuns. Para minha m\u00e3e, seguem juntos o medo e o entusiasmo de tentar algo novo, ou nem t\u00e3o novo assim. Afinal, cuidar da cristaleira durante anos j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 manter viva a hist\u00f3ria de algu\u00e9m?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hora de passar adianta a heran\u00e7a da fam\u00edlia Sua parte favorita da heran\u00e7a s\u00e3o as seis x\u00edcaras listradas de amarelo e acompanhadas dos pires, o \u00fanico conjunto completo de sua cole\u00e7\u00e3o. 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