
Arte: Isadora Batista / Ilustração: Larissa Bilak
Aos 5’, o camisa 9 está cara a cara com o goleiro adversário. Chuta, e vai para fora. “Chute de bicha!”, um torcedor grita da arquibancada. A fala não gera espanto algum a quem está por perto. No setor de visitantes, outro vibra: “Chupa, bambi!”. Nos estádios, ofensas homofóbicas se misturam com cantos e comemorações há décadas. Segue o jogo.
Ricardo Viana é são-paulino e frequenta estádios desde criança. Segundo ele, nos anos 1990, os cânticos homofóbicos eram tidos como provocação, e não como um crime. “Não podia entrar na organizada quem usasse brinco ou pintasse o cabelo, por exemplo”, relata.
Apesar de normalizada, essa descriminação foi expulsa de campo em 2019. Naquele ano, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) passou a penalizar a homofobia no futebol e, meses mais tarde, ela foi equiparada ao crime de racismo pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2023, a infração passou a abranger a injúria homofóbica.
Uma das principais iniciativas de torcedores nessa causa é o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ, criado também em 2019. Inicialmente formada pela LGBTricolor, a Marias de Minas e a Palmeiras Livre, hoje, a iniciativa reúne 18 torcidas organizadas (TOs) e é responsável por dezenas de denúncias de casos de homofobia ao STJD. “Nós fomos construindo um ambiente que permitisse que existíssemos dentro do futebol”, conta Onã Rudá, um dos fundadores do coletivo e presidente da LGBTricolor.
O juiz apita a falta e mostra o cartão amarelo. A primeira denúncia da Canarinhos aconteceu em 2021, após uma partida entre Flamengo e Grêmio em que a torcida rubro-negra cantou: “Arerê, gaúcho dá o cu e fala tchê”. Como resultado, o time carioca foi condenado a pagar uma multa de 50 mil reais.
Segundo Rudá, o diálogo com as principais TOs do país ainda encontra barreiras. “A gente procura conversar com a Associação Nacional das Torcidas Organizadas e com as torcidas que estão abertas para diálogo, mas em alguns espaços, não tem conversa”.
Quem conhece os bastidores das TOs compartilha essa perspectiva: “Lá, não vemos pessoas LGBTQ”, afirmam dois membros da Gaviões da Fiel que escolheram não se identificar. Eles comentam que dificilmente existiria um movimento de inclusão dessas pessoas, assim como de mulheres. “O mundo sempre foi muito machista, então a associação ao feminino sempre esteve presente como forma de reduzir seu rival”.
O fundador do Canarinhos propõe que a normalização da homofobia nos estádios está relacionada também à falta de representatividade dentro de campo. Por sua vez, Ricardo Viana afirma que não acredita ver uma mudança nas torcidas tão cedo. No Brasil, uma pessoa LGBTQ foi morta a cada 34 horas em 2025, segundo relatórios do Grupo Gay da Bahia. Apita o árbitro, fim de jogo.