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Porra, Porra. Porra!

 

Por Ana Santos e Frederico Gomes

 

Arte: Giovanna Accioli / Ilustração: Regina Lemmi

O barulho incessante do trânsito de São Paulo vibra ao seu redor. São cinco da tarde, o corpo está cansado e a cabeça lateja com a agitação do dia a dia.

Mesmo sozinho no carro, a boca se abre e um “porra, que inferno” escapa como um sussurro, tão baixo comparado com o caos do entorno. É o estresse que não pode ser contido e sai como palavrão.

No sinal vermelho, você se distrai com um grupo de amigos assistindo a um jogo de futebol no bar ao lado. “Que golaço do caralho!” ecoa na calçada. Agora, o palavrão como intensificador, uma interjeição de alegria e espanto. E não veio dos colegas, mas do próprio narrador, agitado. “Puskás que pari…”
BIII BIIIIII. O carro de trás berra. A raiva volta tão rapidamente que você não se controla e abre a janela apenas para gritar de volta, o som reverbera entre os veículos.

Mas não se engane ao pensar que os palavrões se limitam a apenas uma função. Afinal, a intenção e os contextos também determinam a maneira que tais expressões são usadas e percebidas por quem as escuta.

Imagina só: você chega em casa para assistir ao debate presidencial. Na tela, aqueles sorrisos forçados, interrompidos pelas clássicas trocas de gentilezas. “Seu vagabundo”, explode um dos candidatos, o debate é interrompido. Agora o palavrão aparece como uma provocação direta, menos espontânea do que a explosão de sentimentos no jogo e menos particular do que o desabafo no carro. O palavrão é proferido com uma intencionalidade, seja para ofender ou para atingir a outra pessoa.

Não nos leve a mal, tais palavrões não precisam carregar apenas conotações negativas. Em outro contexto, talvez você goste e se anime ao ser chamado de vagabundo, de cachorro. Ser xingado e humilhado pode ser um fetiche que você costuma explorar com seu parceiro ou parceira (no escurinho ou no claro, não julgamos ninguém).

O palavrão é parte fundamental de como nos expressamos e interagimos em sociedade. E são as dimensões de seu uso que o Claro! Palavrão pretende explorar.

Expediente – Reitor: Aluísio Augusto Cotrim Segurado. Diretora da ECA-USP: Maria Clotilde Perez Rodrigues. Chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração: Wagner Souza e Silva. Professora responsável: Eun Yung Park. Capa: Fernanda Silva. Editores de conteúdo: Ana Santos e Frederico Gomes. Editora de Artes: Fernanda Silva. Editor Online: Gustavo Radaelli. Ilustradoras: Larissa Bilak e Regina Lemmi. Diagramadores: Beatriz La Corte, Enzo Campestrin, Gabriela Nangino, Giovanna Accioli, Giovanne Cury, Guilherme Farpa, Isabella Zanelli, Isadora Batista, Luiza Santos e Regina Lemmi. Redação: Alinne Maria Aguiar, Andrey Furmankiewicz, Bernardo Carabolante, Breno Marino, Gabriela Duarte, Giulia Polizeli, Guilherme Bianchi, Isabela Nahas, Isabella Lopes, Lara Cáfaro, Leonardo Carmo, Luana Mendes, Malu Vieira, Maria Clara Ramos, Maria Luiza Ribeiro, Matheus Ribeiro, Nicoly Modesto e Talita de Paula. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 – Cidade Universitária, São Paulo, SP, 05508920. Telefone: (11) 3091- 4112. O claro! é produzido pelos alunos do sexto semestre de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo-Suplemento.

PDF | claro! Palavrão

Do porra à égua

 

Por Lara Cafaro e Talita de Paula

 

Arte: Beatriz La Corte / Ilustração: Larissa Bilak

Há palavras que atravessam a mesa de jantar sem reação e outras que fazem a avó erguer os olhos e alguém mandar “lavar a boca com sabão”. O Brasil xinga; a questão é onde, quanto e de que jeito. Isso depende bem menos de regras fixas e mais de quem fala e de quem escuta.

Um levantamento baseado em autorrelato, realizado pela plataforma de idiomas Preply, em 2022 com 1.639 moradores de 15 capitais, aponta o Rio de Janeiro como a cidade que mais xinga no país, com uma média de oito palavrões por dia. São Luís aparece na ponta oposta, com apenas um.

Mas números de pesquisas baseadas em autodeclaração precisam ser lidos com cautela. “Nós sempre temos uma visão diferente sobre a nossa própria fala. Por isso, um linguista não pode usar a sua fala como base”, afirma o sociolinguista Luís Henrique Serra.

Para ele, a explicação do ranking é cultural. No Rio, o palavrão tem apelo social: circula com naturalidade no cotidiano e carrega menos peso social. É o caso de porra, tão repetido no dia a dia carioca que,  de acordo com Serra, vem perdendo a carga ofensiva. 

Já em São Luís, o ambiente mais conservador não elimina a vontade de xingar, apenas a disfarça no que o pesquisador chama de estratégias de fuga: em vez de usar o palavrão em sua forma mais direta, recorre-se a eufemismos como diacho, orra e égua.

“Nesses casos, as pessoas buscam outras expressões para transmitir a mesma emoção sem ultrapassar aquilo que consideram socialmente adequado”, explica Renato Miguel Basso, autor do livro “Português sem censura”.

Essa explicação regional, porém, tem limites. Uma pesquisa de mestrado de David Swingler, da UFPB, constatou que o fator que mais pesa na escolha de xingar não é a região, mas a intimidade entre quem fala e quem ouve. O  estudo também apontou uma lacuna comum entre o que os falantes dizem sobre o próprio comportamento e o que de fato praticam no dia a dia.

O carioca Bruno Faria ilustra bem essa tese: aprendeu cedo a medir as palavras. Perto da tia, que desaprovava o uso de palavrões, se continha. Longe dela, soltava sem pensar. O hábito começou aos cinco anos e chegou a ser controlado quando fez um acordo com a família, um ano sem xingar em troca de um Playmobil de pirata.

A língua não é solitária. Ela acompanha a sociedade e, se parar no tempo, morre. Do cacilda sussurrado perto da avó a um caralho que em uma conversa no bar, o que se transforma é a palavra, e o que permanece é a necessidade humana de dizer o que se sente.

Colaboradores: Jepherson da Silva Rodrigues, jornalista e Manoel Mourivaldo, linguista.

Se é Jornalismo, EXQUECE!

 

Por Bernardo Carabolante e Matheus Ribeiro

 

Arte: Giovanne Cury / Ilustração: Regina Lemmi

Futebol na TV, amigos reunidos, cerveja na mesa e uma caralhada de palavrões para animar a resenha. A cena típica de um boteco agora define o jornalismo esportivo brasileiro. Canais como CazéTV e Ge TV lideram uma guinada que aposentou o terno e a gravata para adotar a informalidade escancarada como padrão. A proposta não visa apenas deixar as produções “descoladas”, mas consolidar uma estratégia agressiva para capturar a atenção nas redes, como pontua Pedro Henrique Cardoso, jornalista das redes do Ge e fundador do perfil de humor esportivo Retranca.

Os números mostram que chutar o balde da formalidade compensa. Na Copa do Mundo de 2026, a CazéTV cobriu todas as partidas e alcançou 118,7 milhões de contas únicas, o que marca um salto de 114% frente à edição anterior.  (Pika, tá?). O canal disputou a atenção com a TV tradicional: superou os 101 milhões de espectadores do SBT e bateu de frente com o Grupo Globo, que somou 142,7 milhões com a TV aberta, os canais fechados e o digital. (Que isso, mané!).

Para Fábio Balassiano, especialista em Marketing, o segredo do sucesso reside na proximidade: “Ao transformar uma comunicação institucional numa roda de amigos, você cria uma conexão genuína entre comunicador e espectador”. A ciência endossa a tese: estudos da American Marketing Association apontam que publicações na internet que ativam emoções positivas como diversão e afeto, via memes, gírias e palavrões bem dosados, disparam em engajamento virtual.  

Contudo, a mágica só funciona se houver verdade na resenha. O executivo de marketing Eduardo Prange adverte que o apelo não está no termo, mas na legitimidade: “O público jovem não é atraído só pelo palavrão, mas pela dinâmica que dialoga com a sua cultura”. Quando o apresentador xinga por puro espasmo do jogo, ele emula a catarse da arquibancada; quando força a barra, vira o clássico “tiozão” tentando parecer descolado na marra.

“Quando não soa natural e passa uma vibe de ‘quero me enturmar’, a gente percebe na hora e perde a vontade de assistir”, relata o consumidor Lucas Rizzo. A repetição mecânica de trejeitos desgasta o conteúdo. Pior ainda é errar a mão no contexto: se a zoeira cabe no lance polêmico, meter gíria para noticiar crises graves ou notas oficiais beira o desrespeito profissional (Que papinho, hein?). Para Prange e pesquisadores, o rigor formal precisa ser preservado em temas estritamente informativos.  

Apesar dos tropeços, os especialistas cravam: o modelo é um caminho sem volta. Cardoso diz que há um esforço para que a abordagem seja naturalizada no ambiente do jornalismo tradicional. Além disso, a consolidação do sportainment, o casamento entre esporte e entretenimento, rompeu a bolha dos gramados e dita os rumos de coberturas da cultura pop. A longevidade dessa linguagem não depende do palavrão pelo choque, mas da capacidade de manter uma conversa franca. Seja no YouTube, Instagram, ou na mesa de bar, o palavrão só cola se for o tempero espontâneo da troca. Sem autenticidade, a resenha azeda antes mesmo do apito final.

Colaboradores: Filipe Mostaro, Prof. da UERJ, e Leonardo Xavier, consumidor.

Time de bixa

 

Por Breno Marino e Maria Clara Ramos

 

Arte: Isadora Batista / Ilustração: Larissa Bilak

Aos 5’, o camisa 9 está cara a cara com o goleiro adversário. Chuta, e vai para fora. “Chute de bicha!”, um torcedor grita da arquibancada. A fala não gera espanto algum a quem está por perto. No setor de visitantes, outro vibra: “Chupa, bambi!”. Nos estádios, ofensas homofóbicas se misturam com cantos e comemorações há décadas. Segue o jogo.

Ricardo Viana é são-paulino e frequenta estádios desde criança. Segundo ele, nos anos 1990, os cânticos homofóbicos eram tidos como provocação, e não como um crime. “Não podia entrar na organizada quem usasse brinco ou pintasse o cabelo, por exemplo”, relata.

Apesar de normalizada, essa descriminação foi expulsa de campo em 2019. Naquele ano, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) passou a penalizar a homofobia no futebol e, meses mais tarde, ela foi equiparada ao crime de racismo pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2023, a infração passou a abranger a injúria homofóbica.

Uma das principais iniciativas de torcedores nessa causa é o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ, criado também em 2019. Inicialmente formada pela LGBTricolor, a Marias de Minas e a Palmeiras Livre, hoje, a iniciativa reúne 18 torcidas organizadas (TOs) e é responsável por dezenas de denúncias de casos de homofobia ao STJD. “Nós fomos construindo um ambiente que permitisse que existíssemos dentro do futebol”, conta Onã Rudá, um dos fundadores do coletivo e presidente da LGBTricolor.

O juiz apita a falta e mostra o cartão amarelo. A primeira denúncia da Canarinhos aconteceu em 2021, após uma partida entre Flamengo e Grêmio em que a torcida rubro-negra cantou: “Arerê, gaúcho dá o cu e fala tchê”. Como resultado, o time carioca foi condenado a pagar uma multa de 50 mil reais.
Segundo Rudá, o diálogo com as principais TOs do país ainda encontra barreiras. “A gente procura conversar com a Associação Nacional das Torcidas Organizadas e com as torcidas que estão abertas para diálogo, mas em alguns espaços, não tem conversa”.

Quem conhece os bastidores das TOs compartilha essa perspectiva: “Lá, não vemos pessoas LGBTQ”, afirmam dois membros da Gaviões da Fiel que escolheram não se identificar. Eles comentam que dificilmente existiria um movimento de inclusão dessas pessoas, assim como de mulheres. “O mundo sempre foi muito machista, então a associação ao feminino sempre esteve presente como forma de reduzir seu rival”.

O fundador do Canarinhos propõe que a normalização da homofobia nos estádios está relacionada também à falta de representatividade dentro de campo. Por sua vez, Ricardo Viana afirma que não acredita ver uma mudança nas torcidas tão cedo. No Brasil, uma pessoa LGBTQ foi morta a cada 34 horas em 2025, segundo relatórios do Grupo Gay da Bahia. Apita o árbitro, fim de jogo.

Para de falar bosta, caralho

 

Por Isabela Nahas

 

Arte e Ilustração: Regina Lemmi

Shit!”, gosta de dizer Timothy Jay ao errar no golfe. Psicólogo e professor emérito da Faculdade de Artes Liberais de Massachusetts, Jay estudou a psicologia dos palavrões dos anos 1970 a 2016. Já Ruth Agostinho, mestre em Linguística pela USP, pesquisou o uso dos palavrões como marcadores discursivos, semelhantes a gírias. Com estudos de épocas, áreas e lugares diferentes, os estudiosos chegaram a conclusões parecidas mais de uma vez. Um exemplo? Se sentir necessidade, pode falar merda.

Em seus estudos, o professor Jay descobriu que xingamentos são mais eficientes que palavras neutras para aliviar frustrações. Ou seja, entre “filho da puta” e “bobo”, o primeiro alivia melhor a dor de uma batida de mindinho do pé. Esses termos ganham poder ainda na infância. “Quando crianças começam a falar palavrões, não sabem o que eles significam. Só que as pessoas ao redor reagem, e aí você aprende que essas palavras são poderosas”, explica.

A força dos palavrões permanece ao longo da vida. Seus significados se conectam a temas considerados tabu, como religião e sexo. Segundo os estudiosos, as instituições de cada sociedade selecionam o que é visto como obsceno, porque grupos influentes determinam os “bons costumes”. No Brasil, Agostinho atribui esse controle a “classes altas, brancas, com acesso à educação formal”. O professor estadunidense tem visão semelhante: “conservadores brancos e cristãos”.

Porém, tem algo capaz de alterar a forma como usamos os tabus linguísticos: o tempo. Termos como “caralho” e “porra” são usados não só no sentido sexual, mas também para enfatizar frases. É nesse campo que Agostinho mergulhou na dissertação. Analisando entrevistas com rappers de São Paulo, a pesquisadora identificou que o uso de palavrões como expressão faz parte de identidades periféricas.

“Se eu mencionar o caralho de alguém, estou reforçando o tabu linguístico. Quando uma coisa é boa e eu digo que ela é ‘do caralho’, não estou mais falando do órgão sexual”, diz Agostinho. O professor Jay reconhece a existência dessas gírias. Diz que algumas palavras são usadas tantas vezes que acabam perdendo a potência, como o citado “caralho”.

No entanto, o pesquisador argumenta que algumas expressões não perdem o peso na sociedade. “As palavras que descrevem o comportamento sexual se tornam contaminadas pelo tabu”, explica. A pesquisadora concorda e afirma que, enquanto o palavrão continuar ferindo os bons costumes, quem fala de tabu será visto como boca-suja.

Isso significa que podemos até falar que algo é “pica” (muito bom) sem ofender ninguém diretamente. Só que não é esperado que alguém diga que o almoço de domingo da avó está “gostoso pra porra”. Exceção é o caso dos netos de Maria Almeida, voluntária de cuidados paliativos, que diz ter ensinado a família a falar palavrão. “Cresci ouvindo e nunca fui reprimida de falar. Sai natural, não tem essa coisa de estar ofendendo”, conta Maria.

Luiza Souza, estudante de ciência da computação, usa essas palavras para ofender mesmo, mas não para gerar briga. Em um grupo de Whatsapp com os amigos, usa para aliviar frustrações; já quando está tranquila, solta no meio das frases, “como forma de expressão”.

Seja como expressão de uma identidade, como estudou Agostinho, ou como xingamento mesmo, é nesse poder de ofender que o professor Jay encontra a utilidade emocional do palavrão: “é melhor xingar do que machucar alguém fisicamente. Porque xingar é apenas ar que sai da boca. Não é uma bala, não é uma faca, não é um soco”.

Ser xingado? Me excita

 

Por Giulia Polizeli

 

Arte e Ilustração: Regina Lemmi

Seis chicotes de couro ocupam um quadro na entrada. Passo pelo balcão, sigo as vozes misturadas com a música pop até um salão amplo com luzes neon na parede. A iluminação vermelha parece um aviso do que a noite aguarda: o tabu escondido pela escuridão do local. Corpos suados com pouca roupa circulam pelo lugar. Algemas, correntes, chicotes, coleiras e orelhas peludas enchem os olhos de quem, assim como eu, entra em um bar fetichista pela primeira vez.

Passando pelos bancos de veludo ao redor do salão, é possível ver figuras que exploram a sexualidade de todas as maneiras. Livres para explorar seus desejos mais profundos. “Geralmente, as pessoas que frequentam esses ambientes vivem isso como um estilo de vida”, explica Gabe Spec, dominador profissional.

Alguns, no entanto, gozam dessa realidade de forma mais discreta. Em um mar de sadomasoquistas, os xingamentos passam despercebidos, mas cada insulto sussurrado manifesta o fetiche “escondido” da humilhação erótica. Para Gabe, essa prática, que me parece tão curiosa, já é algo comum. A humilhação quebra o ego e desconstrói as convicções sociais da pessoa até que ela se submeta ao dominador e a situação, se permitindo a apenas existir ali.

Essa liberdade é um jogo psicológico, delicado e criterioso; as pessoas ao meu redor parecem não se lembrar do mundo lá fora. A terapeuta sexual, Bárbara Bastos, explica que esse tipo de relação é construída por meio da intimidade e da franqueza de revelar seus desejos mais profundos ao outro.

Um casal vestindo roupas de latex pretas combinando segue escada acima. Acompanho sua trajetória até um espaço muito menor. A coleira de metal usada pelo homem reluz na penumbra e estala no chão quando a mulher larga o objeto. 

A masmorra, como é conhecida, é usada para práticas BDSM, um conjunto conjunto de práticas sexuais consensuais baseadas em jogos de poder e controle. Assisto de longe enquanto o homem é amarrado a um aparelho, o qual não conheço o nome. A mulher ronda ao seu redor com um chicote na mão, até o primeiro golpe.

“Vagabundo”, acusou. “Cachorro”, mais uma chicotada. O homem mantém os olhos fechados, vacilando a cada palavra dita. “Canalha.” O xingamento vem sozinho, sem chicote. O corpo curvado hesita. Gabe explica que a ofensa escolhida pelo submisso pode refletir situações externas da sua vida.

Em alguns casos, o próprio uso do palavrão pode trazer uma sensação de alívio, em outros, são xingamentos específicos que são libertadores. A brincadeira é separar a realidade da fantasia. Eu desço as escadas ouvindo os xingamentos ecoarem. No salão, as palavras proibidas estão em todo lugar. A caminhada até o metrô, por outro lado, é silenciosa. É tarde da noite, mas a estação Consolação está tão cheia quanto em horário de pico. Me espremo entre os corpos. O empurra-empurra desesperado me carrega para dentro do vagão. Um barulho avisa que as portas irão fechar e um empurrão final me faz tropeçar, pisando no pé do homem prensado contra a parede à minha frente.

“Puta que pariu. Caralho!”, ele xinga alto, olhando na minha direção. 

Será que foi uma cantada?

Qual é o limite do riso?

 

Por Guilherme Bianchi e Luana Mendes

 

Arte: Gabriela Nangino / Ilustração: Regina Lemmi

O humor pode gerar reflexão, desconforto e, principalmente, risadas. No palco, palavrões, estereótipos e até mesmo temas considerados tabus são matéria-prima para a comédia. Algumas piadas envelhecem mal, na visão de Matheus Monk, diretor do Porta dos Fundos e produtor de conteúdo, mas outras, “justamente por cruzar linhas, são atemporais.” Entre a liberdade de provocar e o direito de não ser atingido pela brincadeira, surge uma questão: onde termina o humor e onde começa a ofensa?

“Responder o que é limite do humor é muito difícil”, analisa o humorista. Para ele, uma referência mais objetiva está na própria lei. “Uma linha muito clara é se aquilo é crime ou não. Reforçar pensamentos criminosos em forma de piada não é graça”, afirma Monk.

Segundo o advogado Gabriel Tyles, a liberdade artística não funciona como uma proteção imediata para os humoristas brincarem com temas como a homofobia, a gordofobia ou o racismo, por exemplo. Pelo contrário, a legislação relacionada a crimes de racismo prevê o aumento da pena quando certas condutas ocorrem com o objetivo de descontração, diversão ou recreação.

Tyles ressalta que não existe uma única resposta para todos os casos, mas que é necessário observar o contexto e a forma como aquela manifestação atinge quem a recebe. Do outro lado do palco, o público também estabelece limites próprios sobre o que é uma piada.

“O limite da liberdade de expressão artística vai até o momento em que a ofensa chega a um receptor que se sente vítima do discurso de ódio. Cabe ao juiz avaliar se, naquele caso, a ofensa está abarcada pela liberdade de expressão ou não”, explica o advogado.

Tiago Ferraz, de 20 anos, frequenta shows de stand-up e também acompanha comediantes pelo YouTube. Natural do Rio de Janeiro e morador de São Paulo, ele está acostumado aos clichês sobre cariocas, como o uso exacerbado de palavrões, os atrasos e o estereótipo de andar “mal vestido”.

Ainda que faça parte da brincadeira, para Tiago, o limite surge quando a caricatura passa a expressar desprezo. “Se fizessem uma piada sobre o carioca ser burro ou incapaz, eu não acharia engraçado. Eu, provavelmente, me sentiria ofendido”, diz. “O humorista está compartilhando um pensamento odioso exclusivo dele. Não é mais piada”.

Monk também expressa preocupação com o alvo. “Não é engraçado quando uma pessoa é motivo de risada. Ela tem que se identificar com a piada e rir junto, e não estar todo mundo rindo dela”, explica.

Quando o palavrão entra na esquete, há também seu espaço e seu limite. Tiago não se incomoda com a linguagem usada durante os shows, “pela energia mais descontraída” do stand-up. Porém, a graça se perde quando o xingamento deixa de ser um recurso e passa a ocupar o centro da piada.

O diretor do Porta dos Fundos reconhece que isso fez parte da história do grupo. “Acho que o Porta [dos Fundos] construiu um império falando de pau… eu não reprimo, mas tem momentos para tudo”, admite. A ressalva está na dependência: “Quando a piada depende só de palavrão ou de ofensa, isso não é uma piada. É só agressão verbal”, opina o humorista.

Monk reconhece que temas ofensivos por vezes provocam um riso “mais de espanto e nervosismo do que propriamente de graça”. Esse tipo de humor aposta no choque. O comediante não o considera inválido, porém questiona de onde vem a reação da plateia: “porque às vezes é só ofensa”.

Debate pela atenção

 

Por Gabriela Duarte e Nicoly Modesto

 

Arte: Guilherme Farpa

“Não, Datena, não!” O grito de Leão Serva, mediador do debate para a Prefeitura de São Paulo em 2024, veio segundos antes de uma cadeira voar contra Pablo Marçal. O episódio, transmitido pela TV Cultura, resume em poucos segundos uma transformação que vai além daquela campanha: na política, o confronto também vira conteúdo.

Nas redes sociais, momentos de tensão são recortados, compartilhados e consumidos fora do contexto original. Assim como aconteceu nos embates entre Marçal e Tábata Amaral. Para Pedro Simões, marqueteiro de Tábata, os debates perderam audiência ao vivo, mas ganharam uma segunda vida por meio dos “cortes”.

É nesse intervalo entre o debate e a internet que o conflito passa a ter outro valor: um ataque pode render mais atenção do que minutos de propostas. Simões chama esse mecanismo de “tática de atenção”: em meio à disputa por segundos de interesse, provocar pode ser mais eficiente que explicar.
Leão Serva, que presenciou um dos episódios mais emblemáticos dessa dinâmica, relembra a tensão de presenciar José Luiz Datena “perder as estribeiras” diante de milhões de espectadores. A situação parecia, segundo ele, um “reality show descontrolado”.

Datena, por outro lado, enxerga a lingua gem agressiva por outro ângulo. “O palavrão faz parte do linguajar popular”, afirma o ex-apresentador por telefone. Candidato a deputado federal, ele diz observar São Paulo e quem está “se fodendo” na cidade para se preparar. Mesmo evitando xingamentos em discursos públicos, Datena reconhece uma política em que a espontaneidade vale mais do que a formalidade.

Daniel Franco, apoiador de Flávio Bolsonaro, defendeu a quebra de decoro como algo autêntico. Durante o ato de 7 de setembro na Avenida Paulista, o eleitor diz “preferir o palavrão que não vá atingir sua vida, do que quem fala besteira e é ladrão”.

A ideia encontra eco em outra apoiadora, que rejeita uma postura considerada hipócrita. A eleitora afirma que suas próprias posições políticas frequentemente a fazem “mandar a esquerda para a puta que pariu”.
Por outro lado, o que aproxima, também pode afastar. O estrategista político Alberto Lage pontua que o insulto precisa ter uma finalidade: é necessário saber contra quem se fala, e o que se espera do eleitor depois de ouvir aquilo.

É nesse cenário que surgem tentativas de disputar atenção sem recorrer diretamente ao confronto. Na corrida eleitoral de 2026, Augusto Cury aposta em uma estratégia de “falar o que o eleitor quer ouvir”.
Segundo o marqueteiro Sérgio Lima, o candidato busca furar bolhas digitais com um discurso de acolhimento, interpretado por alguns como “a cura do Brasil”.

Entre o palavrão que aproxima, a provocação que viraliza e o discurso que tenta acolher, a política brasileira disputa a atenção.

A questão já não é apenas o que o candidato diz, mas o que faz o eleitor ficar para ouvir, ou visualizar: uma cadeira voando pode reverberar bem mais que uma boa proposta.

Colaboradores: Gata Soviétika e Pedro Bellusci (Niki)

/ban no algoritmo

 

Por Alinne Aguiar e Isabella Lopes

 

Arte: Isabella Zanelli / Ilustração: Larissa Bilak

“Minhas dicas de treino para aumentar a sua 🍑”, “Explicando o caso do 4ss4ss1n0 de CEO”, “Como foi o dia em que eu quase virei camiseta de saudade”. É possível que alguns desses termos já tenham marcado presença nas suas redes sociais. 

As expressões e códigos fazem parte de uma nova linguagem da internet chamada algospeak, algorithm (algoritmo) + speak (falar). O termo se refere à estratégia de driblar os filtros de moderação digital. As táticas vão da mistura de letras e números ao uso de emojis e de figuras de linguagem, como eufemismos e neologismos. O objetivo é evitar que os sistemas automatizados captem o sentido original de vídeos ou textos.

Embora não expliquem em detalhes como funcionam seus sistemas de moderação, os sites e aplicativos possuem mecanismos que fazem essa ação, e miram, em geral, conteúdos com teor sexual ou de violência. Mas a moderação não se restringe às redes sociais. Em portais de notícias, ela tem sido utilizada para controlar a seção de comentários dos leitores. É o caso do UOL, no qual Thiago Varella é responsável por tal função. Varella tem a ajuda de uma IA para a triagem inicial dos textos, mas a maior parte do processo é feita por um humano.“Usam ponto na palavra, espaçam, mudam uma letra do xingamento. O internauta pressupõe que seja uma moderação automática e tenta burlar de alguma maneira”, descreve.

O algospeak faz parte da rotina de criadores de conteúdo, em especial aqueles cujas temáticas são delicadas. É o caso do true crime, gênero que reúne conteúdos sobre crimes reais. Existe uma espécie de linguagem própria no ramo: “desviveu”, “a$$a$$1nat0” e “h0m1c1d10” são alguns deles. Há quem não goste da estratégia. Marisa Neta, dona do perfil @ladyfromstars, sobre true crime, é um exemplo. “Eu não gosto de falar ‘desviveu’ porque é uma coisa muito indelicada. Normalmente, eu tento substituir de um jeito que ainda haja sentido naquele assunto.”

No entanto, o iceberg da internet é mais profundo. Michele Prado, que atuou na criação do Glossário analítico das subculturas violentas e linguagens digitais, explica que emojis, abreviações, ironias e gírias podem até parecer banais, mas possuem significados profundos dentro das “bolhas digitais”. “O problema é quando essa mesma lógica é apropriada por comunidades extremistas para esconder determinadas ideias, recrutamentos ou conteúdos violentos”, afirma.

Para um leigo, Café Preto, Cheese Pizza (que também aparece como 🧀🍕) e Club Penguin, por exemplo, podem passar despercebidos. Entretanto, essas palavras substituem o termo CP (sigla de child pornography, “pornografia infantil”), e, muitas vezes, conseguem passar pela moderação. De acordo com Michele, no caso descrito, essas criações são indícios de atividade de extrema gravidade.

A linguagem passa a ser uma espécie de evasão, um desafio para a lógica binária dos sistemas. “Pode carregar ideologia, identidade, humor, pertencimento, glorificação de violência e até instruções de comportamento”. E isso é mais visível com conteúdos criados para gerar choque, curiosidade, medo ou engajamento, “nos quais o usuário vai sendo exposto progressivamente a conteúdos cada vez mais extremos”.

Colaboradora: Paula Bia Camp, criadora de conteúdo.

Nenhum adulto na sala

 

Por Leonardo Carmo e Maria Luiza Ribeiro

 

Arte: Enzo Campestrin / Ilustração: Larissa Bilak

De repente, a inquietação causada pela inexperiência e intensificada pela ambientação do jogo (destruição da paisagem, sirenes e tiros) deu lugar à satisfação de matar um adversário pela primeira vez. Era uma partida de teste, com robôs. Quando me dei conta, começava uma rodada com pessoas reais, desconhecidos com os quais podia falar por chat de voz.

Entre a criação da conta na Steam, loja de jogos para computador, e minha primeira baixa no CS, passaram-se 30 minutos. Bastou informar email, nome e senha e confirmar: “Tenho 13 anos ou mais e concordo com os termos”. O jogo era a terceira sugestão de um carrossel que ocupava quase toda a página inicial da loja. Red Dead Redemption II, o primeiro, é 18+. Mas isso não aparecia ali.

Na Google Play, a tentativa de baixar o Free Fire foi barrada pela exigência de confirmação de idade. Escolhi outro jogo de tiro e logo estava nas batalhas, interrompidas por anúncios diversos.

Já o Kwai, app de vídeos, não exige cadastro. Ao abrir, me deparei com um bebê de IA. Arrastei pra cima. Notícia sobre feminicídio. Próximo. Uma bet faz R$ 1 render R$ 8.500. Próximo. Nos comentários, memes do Lula e um homem sem camisa. Próximo. Um pedreiro bate na bunda de uma mulher; o amigo pede o mesmo e ele estranha. “Eu passaria a mão em outro lugar”, comenta um Igor. Próximo. Não me lembro mais… No canto da tela, um cronômetro: o tempo assistido me rendia moedinhas.

No YouTube, um vídeo patrocinado de jogos de azar, sinalizado como 18+, tinha Stitch, personagem infantil, como chamariz.

Todo esse contexto se distancia da infância vivida por Augusto Almeida e Ryan Alves, hoje na casa dos vinte anos. Aos oito, Ryan assistia à TV, em que imperava o “conteúdo livre para todos os públicos”; no cinema, a mãe ordenava: “Agora fecha o olho, filho”. Já Augusto é dos jogos e chegou aos de tiro pelo irmão mais velho. “Todo mundo via o que eu jogava. Quando minha mãe se incomodava e pedia, eu parava”.

O contraste evidencia a dinâmica atual do acesso à internet, cada vez mais universal, precoce e individualizado. Celulares substituíram o computador coletivo; a programação controlada da TV deu lugar ao streaming e às redes sociais; e a classificação indicativa perdeu espaço.

Os pais têm tido dificuldades para acompanhar os filhos. Segundo dados do Cetic.br de 2025, o uso de recursos de controle parental ainda é minoritário. As plataformas também têm falhas. Augusto relata que as partidas online costumam ser hostis, principalmente nos chats de voz: “Falam muita merda, de palavrões a discursos de ódio. É muito difícil barrarem”. Especialistas ressaltam que, além da dificuldade operacional, as empresas não restringem usuários por priorizarem interesses comerciais.

Sem controle eficaz das plataformas e supervisão dos pais, os jovens ficam expostos a conteúdos inadequados. Jogos violentos podem naturalizar a agressividade e dificultar a identificação de abusos. O contato precoce com conteúdos sexuais pode gerar idealização, cobrança e frustração. Já a interação com desconhecidos pode facilitar a ação de criminosos. A publicidade irregular é outro risco.

Com a implementação do ECA Digital, novas barreiras devem ser criadas. A lei prevê aferição de idade, supervisão parental e proteção contra publicidade abusiva. Luiza Adib, coordenadora do Cetic.br, espera otimista os resultados e adverte: “O recurso técnico não vai dar conta sozinho”.

Colaboradores: Márcia Stengel, professora da PUC Minas e Valdemar W. Stetzer professor do IME-USP.

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

Expediente

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