
Arte: Guilherme Farpa
“Não, Datena, não!” O grito de Leão Serva, mediador do debate para a Prefeitura de São Paulo em 2024, veio segundos antes de uma cadeira voar contra Pablo Marçal. O episódio, transmitido pela TV Cultura, resume em poucos segundos uma transformação que vai além daquela campanha: na política, o confronto também vira conteúdo.
Nas redes sociais, momentos de tensão são recortados, compartilhados e consumidos fora do contexto original. Assim como aconteceu nos embates entre Marçal e Tábata Amaral. Para Pedro Simões, marqueteiro de Tábata, os debates perderam audiência ao vivo, mas ganharam uma segunda vida por meio dos “cortes”.
É nesse intervalo entre o debate e a internet que o conflito passa a ter outro valor: um ataque pode render mais atenção do que minutos de propostas. Simões chama esse mecanismo de “tática de atenção”: em meio à disputa por segundos de interesse, provocar pode ser mais eficiente que explicar.
Leão Serva, que presenciou um dos episódios mais emblemáticos dessa dinâmica, relembra a tensão de presenciar José Luiz Datena “perder as estribeiras” diante de milhões de espectadores. A situação parecia, segundo ele, um “reality show descontrolado”.
Datena, por outro lado, enxerga a lingua gem agressiva por outro ângulo. “O palavrão faz parte do linguajar popular”, afirma o ex-apresentador por telefone. Candidato a deputado federal, ele diz observar São Paulo e quem está “se fodendo” na cidade para se preparar. Mesmo evitando xingamentos em discursos públicos, Datena reconhece uma política em que a espontaneidade vale mais do que a formalidade.
Daniel Franco, apoiador de Flávio Bolsonaro, defendeu a quebra de decoro como algo autêntico. Durante o ato de 7 de setembro na Avenida Paulista, o eleitor diz “preferir o palavrão que não vá atingir sua vida, do que quem fala besteira e é ladrão”.
A ideia encontra eco em outra apoiadora, que rejeita uma postura considerada hipócrita. A eleitora afirma que suas próprias posições políticas frequentemente a fazem “mandar a esquerda para a puta que pariu”.
Por outro lado, o que aproxima, também pode afastar. O estrategista político Alberto Lage pontua que o insulto precisa ter uma finalidade: é necessário saber contra quem se fala, e o que se espera do eleitor depois de ouvir aquilo.
É nesse cenário que surgem tentativas de disputar atenção sem recorrer diretamente ao confronto. Na corrida eleitoral de 2026, Augusto Cury aposta em uma estratégia de “falar o que o eleitor quer ouvir”.
Segundo o marqueteiro Sérgio Lima, o candidato busca furar bolhas digitais com um discurso de acolhimento, interpretado por alguns como “a cura do Brasil”.
Entre o palavrão que aproxima, a provocação que viraliza e o discurso que tenta acolher, a política brasileira disputa a atenção.
A questão já não é apenas o que o candidato diz, mas o que faz o eleitor ficar para ouvir, ou visualizar: uma cadeira voando pode reverberar bem mais que uma boa proposta.
Colaboradores: Gata Soviétika e Pedro Bellusci (Niki)