
Arte: Beatriz La Corte / Ilustração: Larissa Bilak
Há palavras que atravessam a mesa de jantar sem reação e outras que fazem a avó erguer os olhos e alguém mandar “lavar a boca com sabão”. O Brasil xinga; a questão é onde, quanto e de que jeito. Isso depende bem menos de regras fixas e mais de quem fala e de quem escuta.
Um levantamento baseado em autorrelato, realizado pela plataforma de idiomas Preply, em 2022 com 1.639 moradores de 15 capitais, aponta o Rio de Janeiro como a cidade que mais xinga no país, com uma média de oito palavrões por dia. São Luís aparece na ponta oposta, com apenas um.
Mas números de pesquisas baseadas em autodeclaração precisam ser lidos com cautela. “Nós sempre temos uma visão diferente sobre a nossa própria fala. Por isso, um linguista não pode usar a sua fala como base”, afirma o sociolinguista Luís Henrique Serra.
Para ele, a explicação do ranking é cultural. No Rio, o palavrão tem apelo social: circula com naturalidade no cotidiano e carrega menos peso social. É o caso de porra, tão repetido no dia a dia carioca que, de acordo com Serra, vem perdendo a carga ofensiva.
Já em São Luís, o ambiente mais conservador não elimina a vontade de xingar, apenas a disfarça no que o pesquisador chama de estratégias de fuga: em vez de usar o palavrão em sua forma mais direta, recorre-se a eufemismos como diacho, orra e égua.
“Nesses casos, as pessoas buscam outras expressões para transmitir a mesma emoção sem ultrapassar aquilo que consideram socialmente adequado”, explica Renato Miguel Basso, autor do livro “Português sem censura”.
Essa explicação regional, porém, tem limites. Uma pesquisa de mestrado de David Swingler, da UFPB, constatou que o fator que mais pesa na escolha de xingar não é a região, mas a intimidade entre quem fala e quem ouve. O estudo também apontou uma lacuna comum entre o que os falantes dizem sobre o próprio comportamento e o que de fato praticam no dia a dia.
O carioca Bruno Faria ilustra bem essa tese: aprendeu cedo a medir as palavras. Perto da tia, que desaprovava o uso de palavrões, se continha. Longe dela, soltava sem pensar. O hábito começou aos cinco anos e chegou a ser controlado quando fez um acordo com a família, um ano sem xingar em troca de um Playmobil de pirata.
A língua não é solitária. Ela acompanha a sociedade e, se parar no tempo, morre. Do cacilda sussurrado perto da avó a um caralho que em uma conversa no bar, o que se transforma é a palavra, e o que permanece é a necessidade humana de dizer o que se sente.
Colaboradores: Jepherson da Silva Rodrigues, jornalista e Manoel Mourivaldo, linguista.