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Porra, Porra. Porra!

 

Por Ana Santos e Frederico Gomes

 

Arte: Giovanna Accioli / Ilustração: Regina Lemmi

O barulho incessante do trânsito de São Paulo vibra ao seu redor. São cinco da tarde, o corpo está cansado e a cabeça lateja com a agitação do dia a dia.

Mesmo sozinho no carro, a boca se abre e um “porra, que inferno” escapa como um sussurro, tão baixo comparado com o caos do entorno. É o estresse que não pode ser contido e sai como palavrão.

No sinal vermelho, você se distrai com um grupo de amigos assistindo a um jogo de futebol no bar ao lado. “Que golaço do caralho!” ecoa na calçada. Agora, o palavrão como intensificador, uma interjeição de alegria e espanto. E não veio dos colegas, mas do próprio narrador, agitado. “Puskás que pari…”
BIII BIIIIII. O carro de trás berra. A raiva volta tão rapidamente que você não se controla e abre a janela apenas para gritar de volta, o som reverbera entre os veículos.

Mas não se engane ao pensar que os palavrões se limitam a apenas uma função. Afinal, a intenção e os contextos também determinam a maneira que tais expressões são usadas e percebidas por quem as escuta.

Imagina só: você chega em casa para assistir ao debate presidencial. Na tela, aqueles sorrisos forçados, interrompidos pelas clássicas trocas de gentilezas. “Seu vagabundo”, explode um dos candidatos, o debate é interrompido. Agora o palavrão aparece como uma provocação direta, menos espontânea do que a explosão de sentimentos no jogo e menos particular do que o desabafo no carro. O palavrão é proferido com uma intencionalidade, seja para ofender ou para atingir a outra pessoa.

Não nos leve a mal, tais palavrões não precisam carregar apenas conotações negativas. Em outro contexto, talvez você goste e se anime ao ser chamado de vagabundo, de cachorro. Ser xingado e humilhado pode ser um fetiche que você costuma explorar com seu parceiro ou parceira (no escurinho ou no claro, não julgamos ninguém).

O palavrão é parte fundamental de como nos expressamos e interagimos em sociedade. E são as dimensões de seu uso que o Claro! Palavrão pretende explorar.

Expediente – Reitor: Aluísio Augusto Cotrim Segurado. Diretora da ECA-USP: Maria Clotilde Perez Rodrigues. Chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração: Wagner Souza e Silva. Professora responsável: Eun Yung Park. Capa: Fernanda Silva. Editores de conteúdo: Ana Santos e Frederico Gomes. Editora de Artes: Fernanda Silva. Editor Online: Gustavo Radaelli. Ilustradoras: Larissa Bilak e Regina Lemmi. Diagramadores: Beatriz La Corte, Enzo Campestrin, Gabriela Nangino, Giovanna Accioli, Giovanne Cury, Guilherme Farpa, Isabella Zanelli, Isadora Batista, Luiza Santos e Regina Lemmi. Redação: Alinne Maria Aguiar, Andrey Furmankiewicz, Bernardo Carabolante, Breno Marino, Gabriela Duarte, Giulia Polizeli, Guilherme Bianchi, Isabela Nahas, Isabella Lopes, Lara Cáfaro, Leonardo Carmo, Luana Mendes, Malu Vieira, Maria Clara Ramos, Maria Luiza Ribeiro, Matheus Ribeiro, Nicoly Modesto e Talita de Paula. Endereço: Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, prédio 2 – Cidade Universitária, São Paulo, SP, 05508920. Telefone: (11) 3091- 4112. O claro! é produzido pelos alunos do sexto semestre de Jornalismo como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo-Suplemento.

PDF | claro! Palavrão

Até onde vai a nossa língua?

 

Por Amanda Mazzei e Andre Derviche

 

ESTRANHANDO-A-LINGUAGEM-V3

Amanda Mazzei e André Derviche

 

 

Baixar, deletar e emoji são palavras que, com o tempo, deixaram de ser exclusivas do mundo virtual e passaram a estar entre importantes dicionários pelo mundo. Antigamente, a inclusão de verbetes dependia de uma “sabatina” de cinco anos, para ver se eles pegavam entre as pessoas. Mas a língua abraça cada vez mais rapidamente o que lhe é diferente.

 

Para uma geração que já cresceu falando o “internetês”, “baixar” é comum como vírgula. Porém, a implementação de outras construções que aparecem dentro da língua podem vir acompanhadas de alguns obstáculos.

 

A linguagem não binária, por exemplo, nasceu de uma necessidade. Pessoas que não se identificam com nenhum dos gêneros admitidos pela norma padrão da língua portuguesa criaram uma forma de participar da língua que usam cotidianamente. Na visão de Lysandre, uma pessoa não binária de 19 anos, seria importante que a língua rejeitasse a binaridade de gênero, porque isso mostraria o reconhecimento da existência das pessoas não binárias pela cultura e pela sociedade. 

 

 

As línguas e suas variantes nascem espontaneamente, emergindo das necessidades, usos e práticas. Para Iran Ferreira de Melo, pesquisador em Linguística, a língua é construção coletiva social e histórica sempre em disputa — sempre um processo contínuo enquanto houver falantes. Por isso tantas criações, perdas e reconstruções. 

 

A prova dessa disputa vem na reação às mudanças. Por propor novas designações de gênero, grupos LGBTQIA+ são acusados de “corromper as regras gramaticais”, como o foram no texto do PL 5198/20, que busca proibir o “gênero neutro” em escolas, concursos públicos e bancas examinadoras.

 

 

Fato é que estranhamos mudanças, mesmo em relação a algo naturalmente mutante, como as línguas, cujo começo e fim trocam tanto de lugar um com o outro. Apesar de usarmos a linguagem todos os dias como se fosse mais um membro do nosso corpo, nenhuma língua é pedra lapidada. As criações na língua são constantes na história. O que varia é como elas interagem e são adotadas por diferentes grupos da sociedade.

 

 

O escritor mineiro Guimarães Rosa não foi contemporâneo da maioria das discussões sobre o gênero na língua portuguesa, mas sua inventividade pode nos ajudar a refletir sobre elas. Reconhecido por usar neologismos, brincar com o português arcaico e elementos de outras línguas, Rosa e sua literatura em muito simbolizam a construção social que é a língua: uma obra aberta com várias possibilidades. Ela emerge do mesmo solo que é a comunidade, se ramifica em raízes na forma de vozes e gestos para se transformar de tempos em tempos como as estações do ano.

 

 

 

Colaboraram

Érika Gimenes, formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, atua profissionalmente como estrategista de conteúdo.

Fabiana, professora no projeto Girassol, localizado na Zona Oeste de São Paulo, que atua com a alfabetização de jovens e adultos.

Iran Ferreira de Melo, professor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em Linguística pela UFPE e doutor em Letras pela USP.

Lysandre, 19 anos, estudante.

Regina Pereira, jornalista e uma das coordenadoras da Oficina de Leitura Guimarães Rosa, abrigada no IEB-USP.

Família sangue bom

 

Por Quefren de Moura

 

 ilustracao barata

— Aô, sangue! Ele tá pensando que nóis é otário, mais nóis tem sangue nos zóio!

— Ooooooxi! Fala direito, que eu não pus filho no mundo pra falar desse jeito! Eu arranco o sangue do teu couro, moleque!

— Calma, mamita, cê tá com o sangue quente. Fica de boa, só tô trocando umas ideia firme com um broder no celular.

— Adilson, eu não dei o sangue no trabalho o dia todo pra chegar em casa e ouvir filho meu falando assim!

— Ah, mamita, não me chama de Adilson. É Didinho. Desculpa aê. Eu sou firmeza, a senhora tá ligada. Só tiro nota azul na escola. Tá no sangue! Nessa família só tem gente inteligente. Menos a Josi, né?

— Eu ouvi, seu moleque!

“Pum, pa, pa, pum!”

— Ai, ai, ai! É tiro, mainha? A gente vai morrer?!

— Para de ser louca, Josiele! É só o Datena na televisão.

“Exclusivo: eu quero imagens! Marido abusador, sangue ruim, é morto a sangue frio por traficante. Esse aí sangrou até o fim. Batia na mulher, mas agora vai bater só se for no capeta.”

— Ai, mainha, que horror! Tira desse Datena! Ninguém merece essa sanguinolência!

— Eu não tenho sangue de barata, Jô. Agora esse cabra não vai mais tirar sangue da pobre da mulher.

— Credo, mãe! Tira daí! Tô com o sangue gelado, geladinho só de escutar…

— E eu tô com o sangue é fervendo de raiva de tu, Josiele! Vem aqui me explicar esse boletim mais vermelho que sangue! Ou eu vou fazer esse sangue sumir da tua cara rapidinho!

— Ah, mãezinha, matemática não é meu forte, e, tipo assim, a profe é do mal, né? Ela só quer o nosso sangue, isso sim!

— Josiele, para com essa cabeça avoada. Parece que tu não conhece a mãe que tem! Eu tenho sangue na veia!

—  Pô, mãe, cê sabe que lá na escola só tem encostado e sanguessuga. Um bando de ordinário. Ninguém me ajuda e eu não consigo aprender a matéria!

— Filha, tu não tem sangue azul nem nasceu em berço de ouro. Trata de estudar! Ou você quer suar sangue todo dia, que nem sua mãe? Eu não quero ver vocês sofrendo na vida que nem eu!

— Fala se essa mamita não é zica? Mamita sangue bom, firmeza memo!

— Ai, valha-me Deus padre, me põe no chão, moleque da moléstia. Cê tá maior que a mãe! E Josi, filha. Aprender não é sangria desatada. Tenha calma, menina de Deus! Tem que estudar!

“Pum, pa, pa, pum!”

— Ai, ai, ai, mainha do céu, agora sim é tiro! A gente vai morrer!

— Para de ser doida, Josiele! É só o Datena de novo.

“Põe na tela pra mim essa poça de sangue! É sangue mesmo? É sangue Brasil, um banho de sangue!”

— Aumenta esse volume, meu filho! Vão mostrar sangue!

— Ô, mainha do céu, crê em Deus Pai! Tô tremendo mais que vara verde! O sangue de Jesus tem poder!

 

 

Expressões usadas:

“sangue” = parceiro, amigo

sangue nos zóio = pessoa obstinada

arrancar o sangue do couro = espancar

sangue quente = ser facilmente irritável, agressivo e impetuoso

dar o sangue = esforçar-se

estar no sangue = família, linhagem, parentesco

sangue ruim = pessoa malvista

sangue frio = ausência de compaixão

sanguinolência = excesso de violência

não ter sangue de barata = não ser apático, fraco

tirar sangue = bater

sangue gelado = pavor, medo

sangue fervendo = fúria, raiva

ter sangue nas veias = ser propenso a reação exaltada

querer o sangue = exigir em demasia com intenção de prejudicar o outro

sanguessuga = aproveitador

sangue azul = aristocracia, elite

suar sangue = esforçar-se muitíssimo; trabalhar arduamente, até a exaustão

sangue bom = pessoa confiável, admirável

sangria desatada = agir com urgência, imediatismo, de forma descuidada

sangue congelar = tomar susto

banho de sangue = chacina

“O sangue de Jesus tem poder” = no cristianismo, o sangue derramado por Jesus para salvar a humanidade

 


Confira também os integrantes desta edição do Claro! participando de uma competição de mímica. Será que a autora do texto se sairá melhor que seus colegas?

 

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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