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Ser xingado? Me excita

 

Por Giulia Polizeli

 

Arte e Ilustração: Regina Lemmi

Seis chicotes de couro ocupam um quadro na entrada. Passo pelo balcão, sigo as vozes misturadas com a música pop até um salão amplo com luzes neon na parede. A iluminação vermelha parece um aviso do que a noite aguarda: o tabu escondido pela escuridão do local. Corpos suados com pouca roupa circulam pelo lugar. Algemas, correntes, chicotes, coleiras e orelhas peludas enchem os olhos de quem, assim como eu, entra em um bar fetichista pela primeira vez.

Passando pelos bancos de veludo ao redor do salão, é possível ver figuras que exploram a sexualidade de todas as maneiras. Livres para explorar seus desejos mais profundos. “Geralmente, as pessoas que frequentam esses ambientes vivem isso como um estilo de vida”, explica Gabe Spec, dominador profissional.

Alguns, no entanto, gozam dessa realidade de forma mais discreta. Em um mar de sadomasoquistas, os xingamentos passam despercebidos, mas cada insulto sussurrado manifesta o fetiche “escondido” da humilhação erótica. Para Gabe, essa prática, que me parece tão curiosa, já é algo comum. A humilhação quebra o ego e desconstrói as convicções sociais da pessoa até que ela se submeta ao dominador e a situação, se permitindo a apenas existir ali.

Essa liberdade é um jogo psicológico, delicado e criterioso; as pessoas ao meu redor parecem não se lembrar do mundo lá fora. A terapeuta sexual, Bárbara Bastos, explica que esse tipo de relação é construída por meio da intimidade e da franqueza de revelar seus desejos mais profundos ao outro.

Um casal vestindo roupas de latex pretas combinando segue escada acima. Acompanho sua trajetória até um espaço muito menor. A coleira de metal usada pelo homem reluz na penumbra e estala no chão quando a mulher larga o objeto. 

A masmorra, como é conhecida, é usada para práticas BDSM, um conjunto conjunto de práticas sexuais consensuais baseadas em jogos de poder e controle. Assisto de longe enquanto o homem é amarrado a um aparelho, o qual não conheço o nome. A mulher ronda ao seu redor com um chicote na mão, até o primeiro golpe.

“Vagabundo”, acusou. “Cachorro”, mais uma chicotada. O homem mantém os olhos fechados, vacilando a cada palavra dita. “Canalha.” O xingamento vem sozinho, sem chicote. O corpo curvado hesita. Gabe explica que a ofensa escolhida pelo submisso pode refletir situações externas da sua vida.

Em alguns casos, o próprio uso do palavrão pode trazer uma sensação de alívio, em outros, são xingamentos específicos que são libertadores. A brincadeira é separar a realidade da fantasia. Eu desço as escadas ouvindo os xingamentos ecoarem. No salão, as palavras proibidas estão em todo lugar. A caminhada até o metrô, por outro lado, é silenciosa. É tarde da noite, mas a estação Consolação está tão cheia quanto em horário de pico. Me espremo entre os corpos. O empurra-empurra desesperado me carrega para dentro do vagão. Um barulho avisa que as portas irão fechar e um empurrão final me faz tropeçar, pisando no pé do homem prensado contra a parede à minha frente.

“Puta que pariu. Caralho!”, ele xinga alto, olhando na minha direção. 

Será que foi uma cantada?

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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