logotipo do Claro!

 

Para de falar bosta, caralho

 

Por Isabela Nahas

 

Arte e Ilustração: Regina Lemmi

Shit!”, gosta de dizer Timothy Jay ao errar no golfe. Psicólogo e professor emérito da Faculdade de Artes Liberais de Massachusetts, Jay estudou a psicologia dos palavrões dos anos 1970 a 2016. Já Ruth Agostinho, mestre em Linguística pela USP, pesquisou o uso dos palavrões como marcadores discursivos, semelhantes a gírias. Com estudos de épocas, áreas e lugares diferentes, os estudiosos chegaram a conclusões parecidas mais de uma vez. Um exemplo? Se sentir necessidade, pode falar merda.

Em seus estudos, o professor Jay descobriu que xingamentos são mais eficientes que palavras neutras para aliviar frustrações. Ou seja, entre “filho da puta” e “bobo”, o primeiro alivia melhor a dor de uma batida de mindinho do pé. Esses termos ganham poder ainda na infância. “Quando crianças começam a falar palavrões, não sabem o que eles significam. Só que as pessoas ao redor reagem, e aí você aprende que essas palavras são poderosas”, explica.

A força dos palavrões permanece ao longo da vida. Seus significados se conectam a temas considerados tabu, como religião e sexo. Segundo os estudiosos, as instituições de cada sociedade selecionam o que é visto como obsceno, porque grupos influentes determinam os “bons costumes”. No Brasil, Agostinho atribui esse controle a “classes altas, brancas, com acesso à educação formal”. O professor estadunidense tem visão semelhante: “conservadores brancos e cristãos”.

Porém, tem algo capaz de alterar a forma como usamos os tabus linguísticos: o tempo. Termos como “caralho” e “porra” são usados não só no sentido sexual, mas também para enfatizar frases. É nesse campo que Agostinho mergulhou na dissertação. Analisando entrevistas com rappers de São Paulo, a pesquisadora identificou que o uso de palavrões como expressão faz parte de identidades periféricas.

“Se eu mencionar o caralho de alguém, estou reforçando o tabu linguístico. Quando uma coisa é boa e eu digo que ela é ‘do caralho’, não estou mais falando do órgão sexual”, diz Agostinho. O professor Jay reconhece a existência dessas gírias. Diz que algumas palavras são usadas tantas vezes que acabam perdendo a potência, como o citado “caralho”.

No entanto, o pesquisador argumenta que algumas expressões não perdem o peso na sociedade. “As palavras que descrevem o comportamento sexual se tornam contaminadas pelo tabu”, explica. A pesquisadora concorda e afirma que, enquanto o palavrão continuar ferindo os bons costumes, quem fala de tabu será visto como boca-suja.

Isso significa que podemos até falar que algo é “pica” (muito bom) sem ofender ninguém diretamente. Só que não é esperado que alguém diga que o almoço de domingo da avó está “gostoso pra porra”. Exceção é o caso dos netos de Maria Almeida, voluntária de cuidados paliativos, que diz ter ensinado a família a falar palavrão. “Cresci ouvindo e nunca fui reprimida de falar. Sai natural, não tem essa coisa de estar ofendendo”, conta Maria.

Luiza Souza, estudante de ciência da computação, usa essas palavras para ofender mesmo, mas não para gerar briga. Em um grupo de Whatsapp com os amigos, usa para aliviar frustrações; já quando está tranquila, solta no meio das frases, “como forma de expressão”.

Seja como expressão de uma identidade, como estudou Agostinho, ou como xingamento mesmo, é nesse poder de ofender que o professor Jay encontra a utilidade emocional do palavrão: “é melhor xingar do que machucar alguém fisicamente. Porque xingar é apenas ar que sai da boca. Não é uma bala, não é uma faca, não é um soco”.

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

Expediente

Contato

Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, Bloco A.

Cidade Universitária, São Paulo - SP CEP: 05508-900

Telefone: (11) 3091-4211

clarousp@gmail.com