
Arte: Giovanne Cury / Ilustração: Regina Lemmi
Futebol na TV, amigos reunidos, cerveja na mesa e uma caralhada de palavrões para animar a resenha. A cena típica de um boteco agora define o jornalismo esportivo brasileiro. Canais como CazéTV e Ge TV lideram uma guinada que aposentou o terno e a gravata para adotar a informalidade escancarada como padrão. A proposta não visa apenas deixar as produções “descoladas”, mas consolidar uma estratégia agressiva para capturar a atenção nas redes, como pontua Pedro Henrique Cardoso, jornalista das redes do Ge e fundador do perfil de humor esportivo Retranca.
Os números mostram que chutar o balde da formalidade compensa. Na Copa do Mundo de 2026, a CazéTV cobriu todas as partidas e alcançou 118,7 milhões de contas únicas, o que marca um salto de 114% frente à edição anterior. (Pika, tá?). O canal disputou a atenção com a TV tradicional: superou os 101 milhões de espectadores do SBT e bateu de frente com o Grupo Globo, que somou 142,7 milhões com a TV aberta, os canais fechados e o digital. (Que isso, mané!).
Para Fábio Balassiano, especialista em Marketing, o segredo do sucesso reside na proximidade: “Ao transformar uma comunicação institucional numa roda de amigos, você cria uma conexão genuína entre comunicador e espectador”. A ciência endossa a tese: estudos da American Marketing Association apontam que publicações na internet que ativam emoções positivas como diversão e afeto, via memes, gírias e palavrões bem dosados, disparam em engajamento virtual.
Contudo, a mágica só funciona se houver verdade na resenha. O executivo de marketing Eduardo Prange adverte que o apelo não está no termo, mas na legitimidade: “O público jovem não é atraído só pelo palavrão, mas pela dinâmica que dialoga com a sua cultura”. Quando o apresentador xinga por puro espasmo do jogo, ele emula a catarse da arquibancada; quando força a barra, vira o clássico “tiozão” tentando parecer descolado na marra.
“Quando não soa natural e passa uma vibe de ‘quero me enturmar’, a gente percebe na hora e perde a vontade de assistir”, relata o consumidor Lucas Rizzo. A repetição mecânica de trejeitos desgasta o conteúdo. Pior ainda é errar a mão no contexto: se a zoeira cabe no lance polêmico, meter gíria para noticiar crises graves ou notas oficiais beira o desrespeito profissional (Que papinho, hein?). Para Prange e pesquisadores, o rigor formal precisa ser preservado em temas estritamente informativos.
Apesar dos tropeços, os especialistas cravam: o modelo é um caminho sem volta. Cardoso diz que há um esforço para que a abordagem seja naturalizada no ambiente do jornalismo tradicional. Além disso, a consolidação do sportainment, o casamento entre esporte e entretenimento, rompeu a bolha dos gramados e dita os rumos de coberturas da cultura pop. A longevidade dessa linguagem não depende do palavrão pelo choque, mas da capacidade de manter uma conversa franca. Seja no YouTube, Instagram, ou na mesa de bar, o palavrão só cola se for o tempero espontâneo da troca. Sem autenticidade, a resenha azeda antes mesmo do apito final.
Colaboradores: Filipe Mostaro, Prof. da UERJ, e Leonardo Xavier, consumidor.