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/ban no algoritmo

 

Por Alinne Aguiar e Isabella Lopes

 

Arte: Isabella Zanelli / Ilustração: Larissa Bilak

“Minhas dicas de treino para aumentar a sua 🍑”, “Explicando o caso do 4ss4ss1n0 de CEO”, “Como foi o dia em que eu quase virei camiseta de saudade”. É possível que alguns desses termos já tenham marcado presença nas suas redes sociais. 

As expressões e códigos fazem parte de uma nova linguagem da internet chamada algospeak, algorithm (algoritmo) + speak (falar). O termo se refere à estratégia de driblar os filtros de moderação digital. As táticas vão da mistura de letras e números ao uso de emojis e de figuras de linguagem, como eufemismos e neologismos. O objetivo é evitar que os sistemas automatizados captem o sentido original de vídeos ou textos.

Embora não expliquem em detalhes como funcionam seus sistemas de moderação, os sites e aplicativos possuem mecanismos que fazem essa ação, e miram, em geral, conteúdos com teor sexual ou de violência. Mas a moderação não se restringe às redes sociais. Em portais de notícias, ela tem sido utilizada para controlar a seção de comentários dos leitores. É o caso do UOL, no qual Thiago Varella é responsável por tal função. Varella tem a ajuda de uma IA para a triagem inicial dos textos, mas a maior parte do processo é feita por um humano.“Usam ponto na palavra, espaçam, mudam uma letra do xingamento. O internauta pressupõe que seja uma moderação automática e tenta burlar de alguma maneira”, descreve.

O algospeak faz parte da rotina de criadores de conteúdo, em especial aqueles cujas temáticas são delicadas. É o caso do true crime, gênero que reúne conteúdos sobre crimes reais. Existe uma espécie de linguagem própria no ramo: “desviveu”, “a$$a$$1nat0” e “h0m1c1d10” são alguns deles. Há quem não goste da estratégia. Marisa Neta, dona do perfil @ladyfromstars, sobre true crime, é um exemplo. “Eu não gosto de falar ‘desviveu’ porque é uma coisa muito indelicada. Normalmente, eu tento substituir de um jeito que ainda haja sentido naquele assunto.”

No entanto, o iceberg da internet é mais profundo. Michele Prado, que atuou na criação do Glossário analítico das subculturas violentas e linguagens digitais, explica que emojis, abreviações, ironias e gírias podem até parecer banais, mas possuem significados profundos dentro das “bolhas digitais”. “O problema é quando essa mesma lógica é apropriada por comunidades extremistas para esconder determinadas ideias, recrutamentos ou conteúdos violentos”, afirma.

Para um leigo, Café Preto, Cheese Pizza (que também aparece como 🧀🍕) e Club Penguin, por exemplo, podem passar despercebidos. Entretanto, essas palavras substituem o termo CP (sigla de child pornography, “pornografia infantil”), e, muitas vezes, conseguem passar pela moderação. De acordo com Michele, no caso descrito, essas criações são indícios de atividade de extrema gravidade.

A linguagem passa a ser uma espécie de evasão, um desafio para a lógica binária dos sistemas. “Pode carregar ideologia, identidade, humor, pertencimento, glorificação de violência e até instruções de comportamento”. E isso é mais visível com conteúdos criados para gerar choque, curiosidade, medo ou engajamento, “nos quais o usuário vai sendo exposto progressivamente a conteúdos cada vez mais extremos”.

Colaboradora: Paula Bia Camp, criadora de conteúdo.

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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