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desvendando sinais

 

Por Luana Takahashi

 
Arte: Billie C. Fernandes

Quando criança, Alexandre tinha o cabelo comprido até os ombros, o rosto era liso e a voz oscilava em agudos. Um dia, andando pelos corredores labirínticos de um mercado, ele procurava por macarrão. Decidiu abordar uma funcionária, mas foi ela a perguntar primeiro: ”Nossa, você é um menino ou uma menina!?”. ”Tenho doze anos”, respondeu.

Após 32 anos, hoje psiquiatra e diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Alexandre Valverde relembra o episódio. Como neurodivergente, não decifrou a malícia no questionamento da mulher. Depois, até ensaiou boas respostas, mas já era tempo perdido.

Para ele e para alguns de seus pacientes autistas, ler expressões faciais, captar intenções e decodificar uma mensagem são entraves em diálogos. “Enquanto neurotípicos veem o sorriso que a pessoa deu, observo a piscada, a mexida no cabelo, a coçada na cabeça’’, relatou. É uma avalanche de informações que invade suas mentes. O psiquiatra esclarece que o excesso dificulta reconhecer o que é relevante para entender uma sutileza da comunicação.

O sentimento de também não serem compreendidos parece ser uma realidade. Há os que relatam não conseguir mostrar de forma coerente o que sentem. “Às vezes em uma situação de tensão, ao invés de chorar ou ficar irritado, eu gargalho’’, fala Alexandre. A incongruência entre uma expressão e como ela é lida socialmente pode gerar ruídos em interações.

Crianças autistas enfrentam a incompreensão de forma ainda mais intensa. Rafael Ganzer, pai de dois filhos com autismo, conta que o filho de 4 anos costuma apontar para figuras e objetos para manifestar seus desejos. Quando o pai altera o trajeto de volta da escola para casa, gritar e bater são as primeiras reações do menino para dizer que desaprova a mudança.

Essas dificuldades sociais estão relacionadas a anatomia atípica do cérebro de pacientes do Espectro. É o que diz um estudo de imagens cerebrais feito por Monica Zilbovicius, psiquiatra e pesquisadora do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica da França, em 2004.

A alteração está mais especificamente no lobo temporal, próximo às orelhas. A médica explica que a região é essencial para percepção de estímulos sociais. Os exames, no entanto, perceberam que as funções dessa zona do cérebro em voluntários autistas são afetadas devido ao baixo consumo de energia entre ligações de neurônios e a uma menor quantidade de massa cinzenta.

Entre erros e acertos, Rafael precisou aprender a ler os filhos, e teve dificuldades principalmente com o primeiro. Agora, durante as crises do menor, ele se ajoelha, olha em seus olhos, o abraça até que se acalme e acolhe o que está sendo expresso.

O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.

Tiragem impressa: 5.000 exemplares

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