
Arte: Gabriela Nangino / Ilustração: Regina Lemmi
O humor pode gerar reflexão, desconforto e, principalmente, risadas. No palco, palavrões, estereótipos e até mesmo temas considerados tabus são matéria-prima para a comédia. Algumas piadas envelhecem mal, na visão de Matheus Monk, diretor do Porta dos Fundos e produtor de conteúdo, mas outras, “justamente por cruzar linhas, são atemporais.” Entre a liberdade de provocar e o direito de não ser atingido pela brincadeira, surge uma questão: onde termina o humor e onde começa a ofensa?
“Responder o que é limite do humor é muito difícil”, analisa o humorista. Para ele, uma referência mais objetiva está na própria lei. “Uma linha muito clara é se aquilo é crime ou não. Reforçar pensamentos criminosos em forma de piada não é graça”, afirma Monk.
Segundo o advogado Gabriel Tyles, a liberdade artística não funciona como uma proteção imediata para os humoristas brincarem com temas como a homofobia, a gordofobia ou o racismo, por exemplo. Pelo contrário, a legislação relacionada a crimes de racismo prevê o aumento da pena quando certas condutas ocorrem com o objetivo de descontração, diversão ou recreação.
Tyles ressalta que não existe uma única resposta para todos os casos, mas que é necessário observar o contexto e a forma como aquela manifestação atinge quem a recebe. Do outro lado do palco, o público também estabelece limites próprios sobre o que é uma piada.
“O limite da liberdade de expressão artística vai até o momento em que a ofensa chega a um receptor que se sente vítima do discurso de ódio. Cabe ao juiz avaliar se, naquele caso, a ofensa está abarcada pela liberdade de expressão ou não”, explica o advogado.
Tiago Ferraz, de 20 anos, frequenta shows de stand-up e também acompanha comediantes pelo YouTube. Natural do Rio de Janeiro e morador de São Paulo, ele está acostumado aos clichês sobre cariocas, como o uso exacerbado de palavrões, os atrasos e o estereótipo de andar “mal vestido”.
Ainda que faça parte da brincadeira, para Tiago, o limite surge quando a caricatura passa a expressar desprezo. “Se fizessem uma piada sobre o carioca ser burro ou incapaz, eu não acharia engraçado. Eu, provavelmente, me sentiria ofendido”, diz. “O humorista está compartilhando um pensamento odioso exclusivo dele. Não é mais piada”.
Monk também expressa preocupação com o alvo. “Não é engraçado quando uma pessoa é motivo de risada. Ela tem que se identificar com a piada e rir junto, e não estar todo mundo rindo dela”, explica.
Quando o palavrão entra na esquete, há também seu espaço e seu limite. Tiago não se incomoda com a linguagem usada durante os shows, “pela energia mais descontraída” do stand-up. Porém, a graça se perde quando o xingamento deixa de ser um recurso e passa a ocupar o centro da piada.
O diretor do Porta dos Fundos reconhece que isso fez parte da história do grupo. “Acho que o Porta [dos Fundos] construiu um império falando de pau… eu não reprimo, mas tem momentos para tudo”, admite. A ressalva está na dependência: “Quando a piada depende só de palavrão ou de ofensa, isso não é uma piada. É só agressão verbal”, opina o humorista.
Monk reconhece que temas ofensivos por vezes provocam um riso “mais de espanto e nervosismo do que propriamente de graça”. Esse tipo de humor aposta no choque. O comediante não o considera inválido, porém questiona de onde vem a reação da plateia: “porque às vezes é só ofensa”.