Quando João* conseguiu o primeiro emprego, começou a se sentir uma farsa. “Parecia que tinham me dado uma vaga de consolação, que eu não tinha potencial para assumir.” O sentimento piorou após ingressar na USP. “Comparo a minha realidade com a das pessoas à minha volta e vejo o quão deslocado estou nas conversas e trocas de experiências.” João se identifica com a síndrome do impostor, fenômeno em que o indivíduo possui inseguranças derivadas de uma autopercepção deturpada.
Embora qualificadas, pessoas que lidam com a síndrome sentem um medo constante de serem desmascaradas como impostoras e não pertencentes aos ambientes que ocupam. Adauto Faria, psiquiatra e psicoterapeuta, a descreve como um padrão psicológico de distorção, em que os dados da realidade não são suficientes para o indivíduo acreditar em sua capacidade. Apesar de não ser um transtorno mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pode desencadear outros sintomas, muitas vezes associados a quadros de depressão, ansiedade e até manifestações psicossomáticas.
A designação “síndrome do impostor” foi elaborada em 1978 por Clance e Imes, psicólogas norte-americanas. Recentemente, o termo se popularizou entre jovens que o utilizam para descrever a insuficiência que sentem. “O uso das redes contribui bastante para a incidência da síndrome, considerando a lógica da performance e a constante comparação”, é o que diz Giovanna Romano, psicóloga. “A cultura de performar na internet por validação, por likes, pode trazer a sensação de fraude também para quem posta.”
Navegar pelo Linkedin e checar as conquistas dos usuários agrava as inseguranças de Flávia*. Ela atua em um escritório de advocacia penal, área historicamente masculina, e acredita que ser mulher e jovem é um agravante. Quando elogiam seu trabalho, acha que é por dó. “Já senti que eu era a pessoa mais burra daquele lugar, que só estava copiando o que os outros faziam e não merecia estar ali.”
Em análise aprofundada, a psicóloga associa a síndrome à fase da primeira infância. Considerando a psicologia do desenvolvimento humano, a forma como um adulto se enxerga depende de como ele foi tratado enquanto criança e adolescente. “A autocrítica, seja ela real ou fantasiosa como a síndrome do impostor, em que a pessoa interpreta suas conquistas de modo completamente enviesado, tem muito a ver com a criação”, diz.
A síndrome do impostor leva à autossabotagem, à hesitação em aceitar novas oportunidades, ao perfeccionismo e ao ceticismo no sucesso — afinal, deve ter sido sorte, não mérito. Os pensamentos autodepreciativos que a caracterizam aparecem como invasores, mesmo para os indivíduos objetivamente bem-sucedidos, que pensam: “Como vim parar aqui?”
*Os nomes das fontes foram alterados para preservar suas identidades
Colaborador: Luis*, estudante de jornalismo.
Um impostor no ninho
 
Por Matheus Zanin e Sofia Kassab
 
Arte por Bruna Irala e Mayara Prado
Letícia abre seu computador, procura por uma vaga de emprego e, finalmente, a encontra. Tudo parece de acordo, mas alguma coisa a impede de clicar no botão de “candidatar-se”, e passa por sua mente se aquela posição é realmente para ela.
O “fenômeno do impostor” atinge qualquer um, principalmente quem enfrenta problemas como insegurança e falta de autoconfiança. Entretanto, sentir-se estranho ao sucesso e duvidar de suas capacidades afeta, sobretudo, pessoas que lidam com machismo, homofobia ou racismo diários. E os gatilhos para o despertar de seus efeitos ocorrem, geralmente, no ambiente de trabalho.
Uma pesquisa da Universidade de Heriot-Watt, na Escócia, por exemplo, constatou que mais da metade das mulheres já se sentiram impostoras em algum momento de sua vida, comparado com apenas 24% dos homens.
Desde a infância, Letícia aprendeu que meninas devem brincar de boneca, ao invés de jogos mais ativos, como correr, subir em árvores ou jogar bola. Os meninos, desde pequenos, participam de brincadeiras nas quais errar, perder e cair fazem parte do jogo. É ali que começa a construção do erro como “natural” aos homens, mas não para as mulheres.
Quando chegam ao mercado de trabalho, a cobrança que impõem sobre si se torna cada vez maior. Letícia acha que “deu sorte” ou que atingiu seus objetivos “por acaso”, não por competência. Pessoas com comportamentos semelhantes percebem mais os próprios erros do que os acertos. “O ‘ego’ dessas pessoas, isto é, a parte da psique que caracteriza a personalidade de cada um, é fragilizado”, explica a psicóloga Michelle Witzke.
A mesma dinâmica é notada em outras vivências fora do ambiente de trabalho. Em ambientes conservadores, a falta de diversidade prejudica a autoestima. “No mercado financeiro, mulheres se sentem mais inseguras ao lidar com investimentos. Desde cedo, elas não aprendem sobre como cuidar do próprio dinheiro”, diz Sofia Bacha, produtora de conteúdo sobre finanças.
A autossabotagem é outro efeito do estranhamento ao sucesso. Tal sensação faz parte da vida de minorias como a população negra. O racismo gera problemas na saúde mental de pessoas que são constantemente desafiadas e questionadas sobre suas capacidades. “Tenho amigos negros que se queixam da auto-cobrança dentro do ambiente acadêmico”, relata Thiago Ferreira, doutor em comunicação. Qualquer que seja a causa, a consequência é a mesma: um ciclo vicioso de insegurança e ansiedade.
Hoje, Letícia não sabe se tais efeitos passarão. Ela começou a se sentir menos impostora quando começou a fazer terapia. Paralelamente, entrou em uma empresa com um departamento de recursos humanos mais ativo e preocupado com os colaboradores. Mesmo assim, os estímulos para o fenômeno são raízes de problemas sociais graves, difíceis de serem arrancadas.
Se, por um lado, é possível amenizar o lado impostor com sessões de terapia e a segurança gerada por um departamento de RH presente, por outro, existem questões coletivas que permanecem. Resta a dúvida se, mesmo com mudanças estruturais, sentir-se impostor ainda será um mal na sociedade.
Colaboraram:
Gilnara Silva, analista de recursos humanos e psicóloga
Kamilla Maximos, gerente de marketing e criadora da página @eximpostoras no Instagram
Letícia Rosa, engenheira e ex-gerente administrativa
Manuca Ferreira, professor, doutor em comunicação e jornalista
Michelle Witzke, analista de recursos humanos e psicóloga
Sofia Bacha, advogada e criadora de conteúdo sobre investimentos
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.