Marília*, estudante de odontologia, sentiu o estômago revirar quando o namorado desviou a tela do celular ao receber uma mensagem. Foi um movimento rápido, suficiente para disparar um gatilho. Ela carregava fantasmas em relação aos homens: “eu me sentia insegura devido às infidelidades que já tinham ocorrido na minha família”. Quando ele foi ao banheiro, Marília invadiu o aparelho e olhou as conversas. Não encontrou nada, exceto a própria angústia por ter cometido aquela intrusão.
O comportamento de Marília é o reflexo de um sintoma social. Segundo uma pesquisa de 2022 da Gleeden — plataforma para encontros extraconjugais com 1,2 milhão de usuários no Brasil —, oito em cada dez brasileiros admitem que já foram infiéis. O estudo também traçou um perfil resiliente do coração nacional: seis em cada dez pessoas estão dispostas a não terminar a relação mesmo após a descoberta de uma traição.
Clara*, desenvolvedora, é parte da estatística. Ela tentou reconstruir a relação após a namorada confessar uma escapada. Mas a confiança não foi mais a mesma. Hábitos estranhos, como um perfume novo e compromissos em cima da hora, transformaram ela em uma investigadora. Ao acessar o computador da parceira, viu que a visita à sogra era, na verdade, um encontro em uma sorveteria. O confronto veio, a traidora ficou pálida e tentou a cartada do “você está louca”. “Eu já sei que é mentira”, retrucou Clara, “quero saber com quem você estava”.
Quando a investigação por conta própria não chega a lugar algum, entra em cena o trabalho de Alexandre da Silva. Detetive particular há 37 anos, ele coordena vários motoqueiros-espiões que operam nas sombras da cidade. O serviço é transformar a dúvida insistente em prova, com fotos e vídeos.
O investigador revela um dado irônico sobre os seus atendimentos: embora 90% da sua demanda venha de conflitos conjugais, apenas 30% termina com flagrante de traição real. “Existe muita gente possessiva”, afirma Alexandre.
Quem namorou um homem possessivo foi a designer Angela*. Durante quatro meses, ele monitorou curtidas nas redes e conversas em um WhatsApp clonado. Por vezes, incomodado com alguma mensagem, pegou o carro e foi de encontro à namorada, que morava a uma hora e meia de distância. No fim, nem ele aguentou a própria paranoia e terminou. Afinal, era mais um intruso do que um namorado.
* Os nomes foram alterados para preservar as identidades
não me apego não
 
Por Leticia Naome
 
Arte: Adrielly Kilryann e Guilherme Castro
Uns com 30 anos de casado
Sem medo de apego
Eu não tive essa sorte
Toda vez que me abri, eu só sofri
Não achei ninguém, com 30 almas gêmeas por aí
Já que dei muito azar, agora vou pra farra
Esquecer de relação, por mais que volte a sentir
Não vou me entregar, e sim me divertir
(Refrão)
Um, dois, três, mais que dez
É o total de pessoas que saí
Cinco delas são casadas
E foi no Tinder que conheci
Não tem pra que sofrer
No mundo real, o amor é irreal
Por que me comprometer?
Se posso pegar sem me apegar
No outro dia nem ligar
Agora eu já sei, é só ir pra farra
Esquecer de relação, não preciso mais sentir
Quero, sim, sair e me divertir
(Refrão)
Um, dois, três, mais que dez
É o total de pessoas que saí
Cinco delas são casadas
E foi no Tinder que conheci
Música baseada na história de 4 pessoas e nas pesquisas do Badoo e Sky News. Com colaboração de Felipe de Souza, especialista em psicologia clínica.
Fim de relacionamento
 
Por Carina Brito
 
Não. Não. NÃO! EU AINDA NÃO CONSIGO ACREDITAR QUE ELE TERMINOU COMIGO. E por Whatsapp ainda! Já faz 24 horas que eu li aquela mensagem que estraçalhou o meu coração e ainda não consigo acreditar. Nem sair da minha cama. Comer? Pra que? É impossível terminar de ver Stranger Things porque a gente tinha combinado de ver juntos e dói demais assistir sem ele. Como eu vou saber o que acontece no último episódio?? Mas tem alguma coisa de errado comigo que não tem como ter sido causada apenas pelo término. Eu tenho certeza de que estou doente porque não é possível que essa dor que eu esteja sentindo seja normal. Vou pedir para a minha mãe me levar ao médico quando ela chegar em casa. Meus amigos ficaram tristes quando levaram um fora mas eu tenho certeza de que o meu caso é mais grave e eu preciso de um diagnóstico antes que seja tarde. Tenho que me distrair da saudade que estou sentindo. Acho que vou ouvir música. Eu que sempre achei que os cantores sertanejos exageravam nas letras e agora me pergunto se eles se inspiraram em mim para compô- -las! A Marília Mendonça está certa: sem você a vida não continua. E agora, como eu faço para continuar? Não dá! É o fim. Ah, não. E aqui, no Facebook? Todo mundo vai ver que não estou mais em um relacionamento sério. O que vou falar? Não posso dizer que ele terminou comigo. Imagina, levar um pé na bunda. Vou falar que foi de comum acordo, aham, mesmo sabendo que eu nunca terminaria com ele. Mas ele fez isso comigo. Como assim o amor acabou? O amor não era eterno? Meus amigos dizem que estou exagerando, que isso é “normal” para um fim de relacionamento. Ainda dizem que até Fátima Bernardes e William Bonner terminaram em 2016 e hoje estão ótimos. “Ano novo vida nova”, falam. Mas será que eles não entendem? Não vêem que eu não vou ficar bem? Nem daqui um milhão de anos? Perdê-lo foi pior do que tudo que poderia acontecer, pior do que final de novela. Seria melhor se o mundo tivesse acabado de uma vez! Sem ele, não existe final feliz. E não é drama.
Com Leticia Fuentes
Dois Rodrigos, duas medidas
 
Por Giuliana Viggiano
 
Um estudo da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, mostrou que ficar perto da pessoa amada faz muito bem. Um abraço rápido, dormir de conchinha ou só ficar próximo a quem se ama é o suficiente para a liberação de ocitocina, hormônio responsável pela sensação de bem-estar.
Ana Paula e Rodrigo são prova de que distância faz diferença. Se casaram em 2011 na cidade de Campanha, em Minas Gerais: mais ou menos o meio do caminho entre as capitais mineira e paulista. O motivo? Cada um morava em uma cidade — e continuou lá depois do matrimônio.
Ela estava grávida e logo tiveram Bárbara, que fez com que a vontade de morar junto crescesse cada vez mais. Era inviável, para eles, manterem um relacionamento à distância, criarem uma filha e serem felizes ao mesmo tempo. Cerca de um ano depois, Rodrigo veio para São Paulo: esperar uma semana para ver a menina era tempo demais.
Isso não é regra, contudo. Sophie e o outro Rodrigo são super bem resolvidos e moram muito longe um do outro: ele em Piracicaba, no interior paulista, e ela na Finlândia. Mas essa não é a primeira vez que ficam separados, o casal passou dois anos de cinco do relacionamento separado, já que ela viaja muito.
Os dois, entretanto, gostam da distância. Por mais que o tempo passe muito rápido quando estão juntos, os quilômetros que os separam não são de todo ruim: “Não nos arrependemos de nada, sentimos falta um do outro e quando nos vemos é muito bom. Aproveitamos cada segundo como se fosse único”, conta o casal.
Não sei se existe um estudo sobre relacionamentos à distância, mas se houver, com certeza, os Rodrigos e suas respectivas companheiras deveriam participar. Se falta ocitocina para uns, sobra paixão e adrenalina para outros.
De ponto em ponto: o abuso que não para
 
Por Isabela Schreen
 
Ônibus lotado. Se tem uma coisa que eu considero um desafio diário, é enfrentá-lo, mas às vezes não dá. É aperto, gente junta, muita respiração compartilhada contra a vontade dos que estão presentes. Sufoca. Queria estar livre nesse momento, livre da rotina. Na verdade, livre de muitas coisas.
Já a Fernanda*, coitada, está presa em algo pior: um relacionamento abusivo. Ainda bem que eu nunca passei por algo assim. Aquele cara prende, anula, tira a personalidade dela. Anos se passaram e a violência psicológica perdura. Como alguém pode dizer que ama uma pessoa e ao mesmo tempo fazer ela se sentir infeliz, deprimida e fraca perante a tantos insultos? Até que ponto uma atitude possessiva é um sintoma de amor sem freio e doentio, e não uma busca por satisfação própria?
Muitas vezes eu e ela estávamos vendo um filme e ele ligava chamando-a de coisas horríveis, simplesmente por estar com uma amiga. Deturpar a imagem que a pessoa tem de seus companheiros de vida – sejam amigos, ex namorados, e até mesmo família – para se autopromover, faz parte de todo um processo de abuso. Isso parece algo impensável, desumano, e me arrisco à dizer que seria o ápice do egoísmo. Mas é tão comum… como meu ônibus lotado.
A cada ponto que chegamos, entra e sai gente, num vai e vem ritmado. Está chovendo lá fora, e nem toda a andança dentro dessa lataria diminui esse calor humano, que chega a embaçar os vidros. E ainda estou bem encolhida, quase prendendo o ar.
Estar aqui presa me fez lembrar de Carolina*. Essa passou pelos males mais profundos de um relacionamento abusivo. Eu imagino a dor que deve ser se relacionar com uma pessoa e descobrir aos poucos quem ela realmente é, e isso se tornar um monstro em sua vida. E é tudo uma questão de ciclo. Começaram bem e se mudaram para Copenhague*. Mas, longe de família, amigos, ou qualquer pessoa que pudesse ajudar, a armadilha estava formada.
Eram atrocidades o que ele fazia com ela. Bater o carro enquanto nevava foi um pretexto para deixá-la sob seus “cuidados” num país estranho. Ele a deixava sem comida, sem contato com ninguém, e sem nem mesmo poder tomar banho. Era uma espécie de cativeiro físico, e principalmente, psicológico. E além de tudo isso, a agressão física. Eram meses assim, e enfim, uma separação. Depois disso, as palavras doces, e um recomeço com data de validade, pois a agressão poderia até tardar um pouco a chegar, mas estava ali, à espreita, como um cobra prestes a dar o bote.
Hoje, ela tem uma filha com esse homem e o inferno ainda não saiu de sua vida. São ameaças que perduram, e cicatrizes que ainda não se fecharam por completo. E o pior de tudo é a culpa. O questionamento de porquês inexplicáveis, e o sentimento de que aquilo pode ter sido sua culpa. Mas não é.
Bom, cheguei ao meu ponto. Eu até estaria aliviada, se não soubesse que daqui umas 8 horas estarei de volta ao meu ciclo. Eu, e todos aqueles que pretendem algum dia chegar a algum lugar, mesmo que para isso precisem dar voltas e voltas, para se livrarem delas.
O claro! é produzido pelos alunos do 3º ano de graduação em Jornalismo, como parte da disciplina Laboratório de Jornalismo - Suplemento.